O que Jesus quis dizer ao falar “…compre uma espada”? (Lucas 22:36)


Era Jesus a favor da violência armada quando necessário? 

Venda sua capa e compre uma espada foi uma instrução simbólica dada por Jesus a seus discípulos durante a Última Ceia relatada no Evangelho de Lucas e que tem sido interpretada de diversas formas por estudiosos e teólogos. O trecho é:

«Então lhes disse: Agora, porém, o que tem bolsa, tome-a, como também o alforge; e o que não tem dinheiro, venda a sua capa e compre espada (Lucas 22:36)

Jesus não iria se contradizer, pois ele mesmo afirmou que “quem tomar a espada morrerá por ela” (Mat. 26:52) numa forte repreensão para que os cristãos não participassem de conflitos armados. (A história tem confirmado que os cristãos nos anos que seguiram à morte de Cristo e dos apóstolos eram totalmente contra o uso de armas como pode ver aqui em fontes seculares respeitadas.)

O conhecido e renomado teólogo John Gill afirma em sua Exposição Bíblica[#]:

Estas palavras de Cristo não devem ser entendidas literalmente, de que ele gostaria que seus discípulos se munissem de qualquer quantidade de espadas, uma vez que ele jamais teria dito, como ele o fez depois, que duas seriam suficientes, o que não seria de fato para onze homens; ou teria proibido Pedro de se utilizar de uma, como ele fez pouco depois: assim, o sentido é que, onde quer quer estivessem e onde houvesse uma oportunidade para pregar o Evangelho, eles encontrariam muitos adversários, e poderosos, e haveria grande violência seguida de ódio e perseguição; tanta que lhes pareceria necessário precisar de espadas para que se defendessem: a frase expressa assim o perigo a que eles seriam expostos e a necessidade de proteção; e, portanto, seria errado para eles [os apóstolos] brigarem e discutirem sobre superioridade assim como procurar ou esperar algum tipo de pompa ou circunstância temporal no momento desta condição lastimável, aflitiva e de grandes privações; e eles logo perceberiam que a fonte deste desespero e aflição seriam eles mesmos.

Interpretação alternativa

Matthew Henry’s Concise Commentary:

Nosso Senhor notificou uma grande mudança de circunstâncias que se aproximava agora. Os discípulos não devem esperar que seus amigos sejam gentis com eles como foram. Portanto, aquele que tem uma bolsa, deveria levá-la, pois pode precisar dela. Eles agora devem esperar que seus inimigos sejam mais ferozes do que antes, e precisariam de armas. Na época, os apóstolos entenderam que Cristo queria dizer armas reais, mas ele só falou sobre as armas da guerra espiritual. A espada do Espírito é a espada com a qual os discípulos de Cristo devem se revestir.” (Grifo é meu)

 

Barnes’ Notes on the Bible:

Isto, então, não deve ser considerado como um “comando” específico e positivo para obter uma espada, mas uma sugestão de que grandes perigos estavam diante deles; que seu modo de vida seria mudado e que eles precisariam das provisões “apropriadas para esse tipo de vida”. A preparação “comum” para esse estilo de vida consistia em dinheiro, provisões e armas; e ele os prediz dessa maneira de vida, dando-lhes instruções comumente entendidas como adequadas a ela. Isso equivale, então, a uma “previsão” de que eles logo deixariam os lugares aos quais estavam acostumados e iriam a cenas de pobreza, carência e perigo, onde sentiriam a necessidade de dinheiro, provisões e meios de defesa. Tudo, portanto, que a passagem justifica é: 1. Que é apropriado para as pessoas proverem previamente suas necessidades, ministros e missionários, assim como quaisquer outros. 2. Essa autodefesa é legal. Homens cercados de perigo podem legitimamente “defender” suas vidas. Não prova que seja lícito fazer guerra “ofensiva” a uma nação ou a um indivíduo.

 

Jesus censurou muito claramente a Pedro por fazer uso da espada (“Então Jesus lhe disse: Mete a tua espada no seu lugar; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.” – Mateus 26.52).

O fato de Jesus ter mandado seus discípulos se proverem de espadas é uma clara noção de que mesmo que o cristão tenha o poder, recursos e motivos para fazer o mal, não deve fazê-lo.

O CONCEITO CRISTÃO SOBRE A VIOLÊNCIA

É verdade que servos de Deus, na antiguidade, travaram guerras. Mas temos de lembrar-nos de que essas eram guerras teocráticas, ordenadas por Deus. Israel lutou para desapossar da “terra” de Deus nações depravadas e demonólatras. (Levítico 18:24-27; Deuteronômio 7:1-6) Aprova Deus as guerras das nações, em especial as travadas pelo domínio do mundo, desde 1914? Quando católico mata católico, protestante mata protestante, budista mata budista ou muçulmano mata muçulmano, será que eles agem em harmonia com o Deus que “fez de um só homem toda nação dos homens”? Como deve encarar Cristo, o Príncipe da Paz, o derramamento de sangue que irrompeu na cristandade quando começou a Primeira Guerra Mundial e mais tarde a Segunda Guerra Mundial? (Atos 17:24-26; Isaías 9:6) Notemos a norma nova e mais elevada que o Príncipe da Paz estabeleceu para os cristãos pouco antes de sofrer uma morte violenta.

Tendo em mente seu papel no cumprimento da profecia, Jesus disse aos seus discípulos na noite em que foi preso: “Quem não tiver espada, venda a sua roupa exterior e compre uma. Pois eu vos digo que se tem de efetuar em mim o que foi escrito, a saber: ‘E ele foi contado com os que são contra a lei.’” Quando eles responderam: “Senhor, eis aqui duas espadas”, ele lhes disse: “Basta.” (Lucas 22:36-38) Basta para quê? Para incutir uma lição importante para os cristãos.

 

Certamente, não poderia ter havido nenhum outro motivo maior para o uso duma espada do que proteger o próprio Filho de Deus! Todavia, não era da vontade de Deus que Jesus fosse poupado naquela ocasião. Portanto, quando o apóstolo Pedro usou sua espada contra o escravo do sumo sacerdote, Jesus disse-lhe: “Devolve a espada ao seu lugar, pois todos os que tomarem a espada perecerão pela espada.” (Mateus 26:52, 53; João 18:10, 11) Jesus tornou claro que, daquele tempo em diante, a guerra teocrática não devia incluir o uso de armas carnais.

 


 

A neutralidade dos Primitivos Cristãos

 

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Comentários

  • Maílson  On 23 jul 2017 at 10:56

    Assim, a espada era para servir de lição mais tarde, ou seja, quando Pedro pegou a espada para defender Jesus e a usou. Ou seja, o uso da espada serviu para mostrar que não deveria ser usada mais a força física para lutas teocráticas. Seria isso?
    Entendo também que quando Jesus falou que a profecia deveria ser cumprida como “E ele foi contado com os que são contra a lei.’” era preciso ter uma espada. Seria isso também?

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