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“Meu Senhor e meu Deus!” – em que sentido?

ἀπεκρίθη Θωμᾶς καὶ εἶπεν αὐτῷ, Ὁ κύριός μου καὶ ὁ θεός μου.

Respondeu Tomé e disse a ele: “O Senhor meu e o Deus meu.” – João 20:28.
     Muitas narrativas bíblicas visam nos ensinar valiosas lições morais. (Rom. 15:4; 1 Cor. 10:11) Podemos dizer que este é o caso do relato envolvendo Tomé. Que lição este relato visa ensinar-nos? Podemos ver claramente o objetivo do relato nas palavras de Jesus a Tomé no versículo 27: ”Põe o teu dedo aqui, e vê as minhas mãos, e toma a tua mão e põe-na no meu lado, e para de ser incrédulo, mas torna-te crente.”
A palavra grega para “crente” neste texto é πιστός (pistós), que significa “fiel”, “confiável”, e “digno de confiança”. (G.D.) No âmbito do cristianismo, tal palavra é aplicada aos conversos, os convertidos à fé cristã. Por exemplo, Paulo exortou Timóteo a ‘tornar-se exemplo para os fiéis”, quer dizer, para os cristãos. (1Tim. 4:12) Fala-se da mãe de Timóteo como “mulher judia crente” (γυναικὸς Ἰουδαίας πιστῆς; gynaikós Ioudaías pistês), usando-se o feminino de pistós, que é πιστή (pisté). E o que está essencialmente envolvido em serpistós, ou “crente” (fiel)? Quem é pistós, ou “crente”, tem πίστις (pístis), palavra grega para “fé”. Fé em quem? Evidentemente em Cristo. Este é um requisito fundamental para se ser cristão. Mas tal fé é baseada na aceitação de que verdade?
     1 João 5:5 nos fornece a resposta. Este texto declara: “Quem é que vence o mundo senão aquele que tem fé [ὁ πιστεύων ; ho pisteúon] em que Jesus é o Filho de Deus?” Portanto, a base da fé é reconhecer a Jesus, não como o Deus Todo-Poderoso, mas como “o Filho de Deus”. O pistós, ou “crente”, tem tal πίστις (pístis), ou “fé”.
     Portanto, ao exortar Tomé a ‘tornar-se crente’, Jesus não tencionava fazer Tomé aceitá-lo como sendo o ‘seu Deus’. Inclusive o próprio contexto do Evangelho de João identificou o motivo de este relato, bem como de os demais, terem sido registrados. Logo em seguida à narrativa envolvendo Tomé, João conclui: “De certo, Jesus efetuou muitos outros sinais, também diante dos discípulos, os quais não estão escritos neste rolo. Mas, estes foram escritos para que creiais [pisteúete] que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e que, por crerdes [pisteúontes], tenhais vida por meio do seu nome.” O verbo “crer” (πιστεύω; pisteúo) tem ligação com a palavra “fé” (pístis) em grego. Torna-se assim claro que o relato não visava provar que Jesus é o Deus Todo-Poderoso, mas sim que o verdadeiro seguidor de Cristo deve ser pistós, ou “crente”, crendo que “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”. De modo que a expressão exclamativa de Tomé não é o que é relevante, e sim o objetivo do relato, que é provar “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.
Mas, por que Jesus não repreendeu Tomé por este ter usado a expressão “meu Senhor e meu Deus”? Em primeiro lugar, não há consenso entre os peritos em grego sobre a quem Tomé se referiu ao usar tal expressão. Alguns estudiosos afirmam que o grego original exige que as palavras sejam consideradas como dirigidas a Jesus. Mas, por outro lado, outros peritos têm encarado esta expressão como uma exclamação emocional de espanto falada diante de Jesus, mas realmente dirigida a Deus, seu Pai. Seria semelhante a uma pessoa exclamar “meu Deus!” diante de alguém ou de algo que o surpreende.
Os substantivos “Senhor” e “Deus”, na resposta de Tomé, são precedidos de artigo no caso nominativo. Além disso, são acompanhados pelo pronome possessivo “meu”. Não encontramos em nenhuma outra parte das Escrituras Gregas Cristãs (“Novo Testamento”) uma construção similar. Também, a expressão “meu Senhor” é aplicada a humanos (Gên. 18:12), ao anjos (Zac. 1:9; 4:4, 5, 13; 6:4), a Jesus (Mat. 22:44; Mar. 12:36; Luc. 1:43; 20:42; João 20:13; Atos 2:34; Fil 3:8) e a um dos salvos no céu. (Rev. 7:14) No entanto, a expressão “meu Deus” (quando usada por um fiel servo do verdadeiro Deus) em todo o restante das Escrituras é aplicada somente ao Deus Todo-Poderoso Jeová, como Ser distinto do Filho. (Gên. 28:21; Êxo. 15:2; Deu. 4:5;18:16; 26:14; Sal. 68:24; Rom. 1:8; Fil 4:19) Assim sendo, ela nunca foi aplicada a Jesus Cristo. O sentido bíblico da expressão “meu Deus” foi determinado pelo próprio Jesus Cristo, pelo que ele disse uma semana antes desta ocorrência com Tomé a Maria Madalena: “Vai aos meus irmãos e dize-lhes: ‘Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus.’” (João 20:17) Ademais, pouco antes da morte de Jesus, Tomé ouvira a oração de Jesus, na qual se dirigia a seu Pai como “o único Deus verdadeiro”. (João 17:3) O próprio Jesus deixou bem claro quem é o Deus dos cristãos. Assim, pelo conhecimento que tinha, Tomé não pensava que Jesus era o Deus Todo-Poderoso. De modo que o contexto bíblico aponta para o entendimento de que Tomé estava se dirigindo a Jeová Deus ao fazer tal exclamação.
Até mesmo os teólogos da cristandade reconhecem o peso do contexto. John Martin Creed, como Professor de Divindade na Universidade de Cambridge, observou: “A exclamação adoradora de S. Tomé ‘meu Senhor e meu-Deus’ (João xx. 28) ainda não é a mesma coisa que se dirigir a Cristo como sendo sem ressalva Deus, e precisa ser equilibrada pelas palavras do próprio Cristo ressuscitado a Maria Madalena (v. 17): ‘Vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, e meu Deus e vosso Deus.” – TheDivinity of Jesus Christ (A Divindade de Jesus Cristo), de John Martin Creed, página 123.
      Mesmo que Tomé estivesse se referindo a Jesus como “Deus”, isto não argumentaria a favor da Trindade, porque ser alguém mencionado como “Deus” na Bíblia não prova, em si mesmo, que tal pessoa é o Deus Todo-Poderoso. O termo “Deus” foi aplicado a Moisés, a anjos e a juízes humanos. (Êxo. 4:16: 7:1; Sal. 8:5; 82:1-6; João 10:34, 35, ALA ) Moisés e os juízes humanos receberam poder ou autoridade conferidos por Deus e agiram como Seus representantes. Os anjos, além de serem representantes de Deus, também possuem natureza divina. (Sal. 8:5) Por tais motivos, foram mencionados como sendo “Deus’ ou “deuses”. E quando tal termo foi aplicado a Jesus, sempre se esclareceu o sentido em que ele é referido como “Deus”. Por exemplo, em João 1:18 ele é referido como “Deus unigênito” (ALA, VB), literalmente, ‘o único Deus gerado’, o que indica que mesmo na sua divindade ele teve princípio. Isaías 9:6 refere-se a Jesus como “Deus forte” (ALA), ou “Deus poderoso” (NM), ao passo que somente Jeová é descrito como “Deus Todo-Poderoso”. (Gên. 17:1) Em  João 1:1 Jesus é aludido como “Deus” (Als) sem o artigo definido, em contraste com Aquele com quem ele estava no princípio, que é descrito como “Deus”. Assim sendo, tal uso do termo “Deus” descreve sua natureza e não identifica sua pessoa com o Deus Todo-Poderoso. Jesus é mencionado como “Deus” na Bíblia por ter natureza divina e por ser representante do Deus Todo-Poderoso.
     Tomé tinha conhecimento do uso que as Escrituras Hebraicas (“Velho Testamento) fazem do termo “Deus”. Portanto, se ele se referiu a Jesus com a expressão “meu Deus”, ele meramente estava reconhecendo em Jesus o Porta-Voz e Representante de Deus, assim como outros se dirigiram a anjos como se fossem Jeová. (Compare com Gên. 16:7-11, 13; 18:1-5, 22-33; 31:11-13; 32:24-30; Juí. 2:1-5; 6:11-15; 13:20-22.) Isto se dava porque o mensageiro angélico atuava por Jeová, como Seu representante, falando em Seu nome, talvez usando o pronome pessoal na primeira pessoa do singular e chegando mesmo a dizer: “Eu sou o verdadeiro Deus.” (Gên. 31:11-13; Juí. 2:1-5) Mas, mesmo usando a primeira pessoa do singular, às vezes tais anjos explicavam que o que estavam falando era “a pronunciação de Jeová”. (Gên. 22:17; Núm. 14:28; compare com Gál. 3:19; Atos 7:38, 53; Heb. 2:2; veja também Zac. 2:1-6; 3:6-4:1; 5:3-5.) Veja o artigo “Quem é o anjo de Jeová?” neste blog, no link http://oapologistadaverdade.blogspot.com.br/2011/09/quem-e-o-anjode-jeova-tentativa-de.html
     Por conseguinte, a declaração de Tomé não pode ser usada para sustentar a crença antibíblica da Trindade.
Este artigo foi escrito por O Apologista da Verdade cujo link aparece acima.
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