Dúvida de Leitores: Nascimento Virginal nos Evangelhos – invenção posterior?


O leitor R. Umburana fez a seguinte pergunta a nós do site TRADUÇÃO DO NOVO MUNDO DEFENDIDA:

É com muita admiração que observo a intrepidez e pujança com as Testemunhas de Jeová desprendem esforços grandiosos em defesa do que acreditam. Admira-me saber que representantes desta denominação tão seguros em seus argumentos; conhecedores de ínfimos detalhes bíblicos e também conhecedores dos idiomas bíblicos. Foram tão perseverantes nos estudos que clamaram para si a responsabilidade de produzirem a Tradução do Novo Mundo, uma Bíblia polêmica e singular, que por sinal não conheço suficientemente, mas que, tendo em vista as defesas desta versão, conheci a sinceridade de seus defensores. Assisti ao vídeo no YouTube no qual dos membros de sua congregação defendem à exaustão a Tradução do Novo Mundo. Foi um vídeo verdadeiramente revelador! Eu só tenho que me admirar mesmo! O seu site, Sr. Queruvim, possui textos interessantíssimos que avaliam com muito meticulosidade as posições defendidas pelas Testemunhas de Jeová. Por vezes, eu fui “balançado” em me tornar parte desta obra frequentando as reuniões, mas confesso que tenho muitas divergências ainda.

Certa dissidência de determinada denominação apregoam que Jesus foi um mortal como nós, mas ungido por Deus, o que o diferenciaria de nós. Conta-se que Jesus era filho carnal de José e Maria, e que o nascimento virginal foi um acréscimo doutrinal autorizado pela Igreja Católica em meados do primeiro milênio. Fala-se inclusive que a presença da genealogia paternal de Jesus no Evangelho de Mateus seria totalmente desprezível se Cristo não tivesse sido filho de José. 

RESPOSTA do site TNMD: 

A afirmação de que ” o nascimento virginal foi um acréscimo doutrinal autorizado pela Igreja Católica em meados do primeiro milênio”, não se sustenta ao observarmos que escritos tanto seculares quanto cristãos confirmam os relatos dos evangelhos. Por exemplo o Diatessarão do 2º século. Foi uma notável obra de Taciano, o Diatessarão é uma harmonia dos quatro Evangelhos.Taciano foi o primeiro a dar os Evangelhos às congregações na Síria na própria língua delas. Era uma obra muito conceituada, combinando os quatro Evangelhos numa única narrativa.  A Bíblia inteira em latim já parece ter sido usada em Cartago, África do Norte, pelo menos por volta de 250 EC. À medida que o cristianismo se espalhou, outras versões foram produzidas. Pelo menos por volta do terceiro século EC já se tinha feito a primeira tradução das Escrituras Gregas Cristãs para os nativos cópticos do Egito. No Egito usavam-se diversos dialetos cópticos, e, com o tempo, produziram-se várias versões cópticas. As mais importantes são a versão Tebaica ou Saídica do Alto Egito (no Sul) e a versão Boaírica do Baixo Egito (no Norte). Há centenas de manuscritos dos evangelhos sejam fragmentários ou não que antecedem em muito o tempo da Igreja Católica. Sem falar na autenticação destes por parte de milhares de escritores que viveram no primeiro ao terceiro século. Podemos citar apenas alguns, Justino, o Mártir (c. 100-165 EC),  Orígenes (c. 185-254 EC), e antes destes houve escritores religiosos que podem ter conhecido um dos apóstolos de Jesus ou que talvez tenham sido ensinados por discípulos instruídos pelos apóstolos. Na sua maioria, esses homens viveram entre o fim do primeiro século e a metade do segundo século EC.* Entre eles estavam Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Pápias de Hierápolis e Policarpo de Esmirna. Quase todos estes citaram os mesmos relatos dos evangelhos muito antes do surgimento da Igreja Católica em meados do 4º século. Tais escritores que viveram muito antes do Concílio de Nicéia no ano 325 E.C,  não tinham como padrão em seus escritos lutarem entre si sobre a autenticidade e originalidade dos evangelhos, antes discordavam ocasionalmente ao interpretarem a tais, sendo que muitos recorriam a filosofias humanas a fim de explicarem os evangelhos tal qual o conhecemos hoje.

Muitos ao se depararem com algum escrito muito antigo que fazem afirmações em total desacordo com os evangelhos, por exemplo, alegando que Jesus era casado e outras ideias do tipo, sem o mínimo de verificabilidade ou apoio histórico, apontam para tais como “provas” de suas teorias conspiratórias. Longe de usarem o método acadêmico de verificação textual adotam o parecer infantil e precipitado de que qualquer coisa que se escreve é fato. Não são muito diferentes daqueles que ao acessarem hoje a internet e se depararem com blogs cheios de declarações sem o mínimo de verificabilidade ou comprovação, divulgam ou repetem a tais como sendo verdade.

Muitas das alegadas invenções pelos críticos modernos dos evangelhos não é encontrada nas Escrituras Gregas Cristãs, mas sim em escritos posteriores promovidos por alguns opositores. Portanto, certas narrativas antibíblicas sobre Cristo foram produzidas enquanto comunidades alienadas da congregação apostólica se apostatavam do verdadeiro cristianismo. Atos 20:28-30.

Mencionando  pontos em favor da autenticidade dos evangelhos a página JW.ORG diz:

“O autor e crítico C. S. Lewis achou difícil encarar os Evangelhos como meras lendas. “Como historiador literário, estou perfeitamente convencido de que, independentemente do que sejam, os Evangelhos não são lendas”, escreveu. “Não são suficientemente artísticos para tratar-se de lendas. . . . Desconhecemos a maior parte da vida de Jesus, e ninguém que inventasse uma lenda permitiria que isso acontecesse.” É também interessante que embora o famoso historiador H. G. Wells não afirmasse ser cristão, reconheceu: “Todos os quatro [escritores dos Evangelhos] estão de acordo no que diz respeito a fornecer-nos um quadro de uma personalidade bem definida; eles transmitem a . . . convicção da realidade.”

Veja o artigo:

Os Evangelhos: História ou mito?

Portanto, a suposição de que o nascimento virginal de Jesus foi um”acréscimo posterior” não demonstra nenhuma evidência lógica e contradiz textos canônicos e outros textos cristãos/seculares bem fundamentados. Contradiz a narrativa interna da própria Bíblia ao apresentar Jesus como o meio providenciado por Deus para salvar a humanidade da condição morredoura herdada pelo primeiro Adão. Toda a lógica das cartas de Paulo seriam mera coincidências. Ele escreveu em Gálatas 4:4:

“Mas, quando chegou o pleno limite do tempo, Deus enviou o seu Filho, que veio a proceder duma mulher e que veio a estar debaixo de lei,”

A Bíblia inteira está entrelaçada ao apontar para tudo o que aconteceu no nascimento virginal de Jesus. (Gên 22:15-18; 26:24; 28:10-14; 49:10; 2Sa 7:8, 11-16; Lu 3:23-34) Sendo assim, negar o relato dos evangelhos exige-se que se negue também toda história registrada nos textos mencionados aqui, como “invenção”. Não há como tentar em são juízo desarticular todo este testemunho da Bíblia, a favor de pessoas que criticam a Bíblia sem sequer usarem de lógica no que dizem.

Gostaria de saber qual é o posicionamento das Testemunhas de Jeová. Sei que vocês atribuem a Jesus um grau de divindade, mas que nos lembra que Moisés e outros também foram chamados de Deus/deus. Parece que Jesus foi a obra-prima de toda a criação, pois era um homem mortal que não tinha pecado algum, embora fosse tentado em sua vida terrena. O fato de Jesus ser um mortal acima de todos os homens também não parece diminuir em nada o grau de divindade que Ele possui. Tendo posto essa palavra, Jesus foi filho carnal de José e Maria? Qual é sua opinião sobre isso? (R. Umburana)

Não, não era um “filho carnal de Jose e Maria”. Mas sim o filho de Deus, por meio de Maria. Jesus não era filho do próprio José, mas era o Filho de Deus, a genealogia de Jesus, por Lucas, demonstra que ele era, por nascimento humano, filho de Davi, por meio da sua mãe, Maria.

Jesus não era mortal no sentido inerente. Ele poderia ser morto, mas não morreria nunca em condições normais, uma vez que era isento do pecado. (Rom. 6:23) Veja o tópico Jesus Cristo. José foi o pai adotivo de Jesus. Jeová Deus fecundou um óvulo em Maria sem a presença de um esperma de José. Por este motivo e por receber autoridade e poder de Jeová para curar, julgar entre outros, Jesus era “divino” ou “poderoso”. Isaías 9:6 . Sobre a genealogia de Jesus Frederic Louis Godet escreveu:

“Este estudo detalhado do texto nos leva assim a admitir — 1. Que o registro genealógico de Lucas é o de Eli, avô de Jesus; 2. Que, visto esta filiação de Jesus com Eli ser expressamente oposta à Sua filiação com José, o documento que ele preservou para nós, no conceito dele, não pode ser nada mais do que a genealogia de Jesus através de Maria. Mas, por que não menciona Lucas a Maria, e por que passa logo de Jesus para o Seu avô? Sentimentos antigos não condiziam com a menção da mãe como elo genealógico. Entre os gregos, o homem era filho do seu pai, não da sua mãe; e entre os judeus, o adágio era: ‘Genus matris non vocatur genus [“O descendente da mãe não é chamado descendente (dela)”]’ (‘Baba bathra’, 110, a).” Commentary on Luke (Comentário Sobre Lucas), 1981, p. 129.

Atenciosamente,

 

Queruvim

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