Foi a Massorah falsificada ?


Maimônides também chamado Rambam(c.1136) afirmou em seus escritos Tefillin, Mezuzah e Sefer Torah que a Lei ou Toráh, exige que “cada palavra seja escrita de uma maneira perfeita.” E ele prosseguiu dizendo: “Da mesma forma, um rolo da Torá que está faltando até mesmo uma letra é inaceitável.” Maimônides afirma que ao se fazer a cópia do rolo da torah, caso alguém fosse cumprimentado, deveria terminar de escrever o Nome de Deus e somente depois cumprimentar a pessoa. O Nome de Deus não deveria ser escrito em duas linhas e sofrer uma separação de sílabas. Deveria ser escrito e preencher todo o final de uma linha como pode ser visto na figura abaixo. 

 

 

 

Caso uma mulher, criança, homem muito poderoso, um apóstata ou herege copiasse o rolo da lei, este deveria ser dispensado e não poderia ser usado por um judeu. Uma letra hebraica jamais deveria ser parecida com outra ao se copiar a torah. Este extremo cuidado ao se transmitir a torah, indica quão sério era para os massoretas a tarefa de copiar um texto e prepará-lo juntamente com os sinais massoréticos.

Nos escritos de Elias Levita (ou Eliah HaLevi) ele menciona que houve muitas pessoas que se opuseram ao seu trabalho de esclarecer dúvidas a respeito da Massorah.( Massoreth HaMassoreth página 87) Isso não é de admirar, visto que um dos escritos mais fantásticos que conheci abordando questões relacionadas ao texto massorético foi o trabalho Massoreth HaMassoreth (1538 ). Neste livro, Elias Levita afirma que “o Keri e o Ketiv não era sobre vogais e acentos” e afirma: “A razão disto é porque não havia nenhuma diferença de opinião entre todo o Israel a respeito da pronúncia das palavras.” Logo no início de suas dissertações a respeito do Keri e o Ketiv, Elias Levi afirma que a família de Aaron Ben Asher preparou o texto hebraico ocidental, também chamado palestino, ao passo que a família de Yaakov Ben Naftali preparou o texto oriental ou babilônico. Sobre estes textos, Maimônides (c.1138) afirma em seu Tratado a Respeito do Amor de Deus:

A cópia que seguimos nestes assuntos é o famoso Codex do Egito, os quais contém os 24 livros e que ficou em Jerusalém por muitos anos, a fim de que outros Códices pudessem ser corrigidos pelo seu texto; e todos os seguiam visto que Ben Asher o havia revisado minuciosamente por muitos anos e o corrigido muitas vezes. De acordo com isto muitas cópias foram produzidas; e eu também o segui concernente ao Livro da Lei, que eu mesmo escrevi em toda sua integridade.

Elias Levita afirma que as variações entre o texto de Naftali e o de Ben Asher “está confinado à pequenos acentos tais como meteg, mapiks, munach, um pashtah ou dois pashtahs.” A afirmação de que os nomes dos israelitas “foram inventados pelos massoretas” e que são uma “adulteração” não tem base alguma, visto que duas escolas do texto massorético em regiões geográficas diferentes criaram a mesma vocalização, não somente para os nomes dos antigos israelitas, mas para as demais palavras do restante das escrituras do chamado Velho Testamento.

Os massoretas eram tão cuidadosos ao vocalizarem o texto da torah, que distinguiam um verbo na terceira pessoa do singular no tempo passado colocando um patah no segundo radical(נִפְקַד) de um verbo, ao passo que no pretérito empregavam um kametz (נִפְקָד). Elias Levita prossegue asseverando que as vogais foram recebidas audivelmente no Monte Sinai, não em forma escrita, mas sonora. O que os massoretas fizeram a partir do ano 500 E.C *, foi inventar um sistema de pontos e letras vocálicas a fim de representar o que já existia foneticamente. Portanto, afirmar que os massoretas “inventaram as vogais” é um equívoco.

Elias Levita conta-nos que lemos “no Talmude (Baba Bathra 21 b) que Joab matou seu professor porque ele realizou o trabalho do Senhor enganosamente ao ler para ele Zakhar ao invés de Zekher (Deut.  xxv 19).#

Fica claro quão sério seria para os massoretas ‘inventarem’ nomes com vocalizações que não as conhecidas desde a antiguidade!

Na Septuaginta e em outros textos judaicos de língua grega, como os escritos de Josefo e Filo de Alexandria,ησοῦς Iēsoûs é a forma padrão do grego koiné usada para traduzir ambos os nomes hebraicos: Yehoshua e Yeshua. Ou seja, mais de um século antes de Cristo temos textos em grego na LXX onde os nomes teofóricos não são escritos com Ya no começo mas Ye.  Alguns estão propagando a ideia de que o texto massorético foi “adulterado” e teve seus nomes mudados. O objetivo principal dos postuladores desta opinião é nada mais que evitar a pronúncia Jeová e acabam revelando uma Yehofobia.( Palavra que eu inventei para designar uma pessoa que odeia o nome Jeová ou a forma Yehováh). O que vemos portanto, é um tipo de rejeição/antagonismo à forma do nome de Deus, como sendo Yehováh

Portanto a Massoráh não foi “adulterada” por vários motivos, cito alguns:

  • O zelo dos copistas em evitar qualquer tipo de adulteração
  • As vogais não foram “inventadas” pelos massoretas, mas sim a representação gráfica delas
  • Textos antigos em grego no 2º século A.E.C como a LXX e depois os Evangelhos empregaram nomes com vocalização igual à da Massorá. Uma pesquisa recente da universidade do Texas intitulada A THE SECOND COLUMN (SECUNDA) OF ORIGEN’S HEXAPLA IN LIGHT OF GREEK PRONUNCIATION, mostra que quando Orígenes transliterou nomes hebraicos para o Grego, séculos antes da produção do texto massorético, estes tinham a mesma pronúncia. Não houve disputa alguma a respeito de nomes judaicos, como se os massoretas tivessem “inventado” as vogais.

 

  • Hebraico Tiberiano

    29  כִּֽי־אַ֭תָּה תָּאִ֣יר נֵרִ֑י יְהוָ֥ה אֱ֝לֹהַ֗י יַגִּ֥יהַּ חָשְׁכִּֽי׃

    30  כִּֽי־בְ֭ךָ אָרֻ֣ץ גְּד֑וּד וּ֝בֵֽאלֹהַ֗י אֲדַלֶּג־שֽׁוּר׃

    31  הָאֵל֮ תָּמִ֪ים דַּ֫רְכֹּ֥ו אִמְרַֽת־יְהוָ֥ה צְרוּפָ֑ה מָגֵ֥ן ה֝֗וּא לְכֹ֤ל ׀ הַחֹסִ֬ים בֹּֽו׃

    32  כִּ֤י מִ֣י אֱ֭לֹוהַּ מִבַּלְעֲדֵ֣י יְהוָ֑ה וּמִ֥י צ֝֗וּר זוּלָתִ֥י אֱלֹהֵֽינוּ׃

    Secunda (Hexapla)

     

     

    29. χι αθθα θαειρ νηρι YHWH ελωαι αγι οσχι

    30. χι βαχ αρους γεδουδ ουβελωαι εδαλλεγ σουρ

    31. αηλ θαμμιν (*-μ) δερχω εμαραθ YHWH σερουφα μαγεν ου λαχολ αωσιμ βω

    32. χι μι ελω μεββελαδη YHWH ουμι σουρ ζουλαθι ελωννου (*-ηνου)

 

  • As Escolas tanto no oriente quanto no ocidente produziram a Massoráh e vocalizaram os nomes de forma similar
  • O Qere e o Ketiv não apresentam a suposta “adulteração” de nomes na Massoráh


 

 

*Nota:  Paul DWegner (PhD, Kings College, Universidade de Londres) e professor do Velho Testamento.



 

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