Os Dons de Línguas e Profecias Hoje, vem de Deus?


O século vinte testemunhou uma surpreendente explosão de igrejas pentecostais. Diversas religiões evangélicas promovem o pentecostalismo. Após o segundo Concílio do Vaticano (1962-1965) o movimento pentecostal aflorou no catolicismo romano, ficando conhecido como movimento carismático. Entretanto, dúvidas sobre a validade ou genuinidade desse comportamento religioso pairam na mente de muitas pessoas sinceras, e isso por pelo menos três motivos.

Primeiro, as religiões que alegam possuir os dons do espírito têm doutrinas muito divergentes entre si. Uma vez que “Deus não é Deus de desordem [confusão, Al]”, como poderia um dom da parte dele se manifestar em religiões tão conflitantes entre si? (1 Cor. 14:33) Segundo, o modo de vida levado pelos que professam ter tais dons põe em dúvida a genuinidade de sua afirmação. Uma enquete de 1980 da revista Christianity Today e do Instituto Gallup de Pesquisa, feita junto a cinco milhões de estadunidenses que alegavam falar em línguas, trouxe à tona resultados surpreendentes. Note abaixo o que os números indicaram:

  •  33% não acreditavam que o Diabo seja uma pessoa real
  • 19% aprovavam o sexo antes do casamento
  • 44% não consideravam a Bíblia como a autoridade mais importante.
  •  58% por cento não davam prioridade a ajudar a ganhar outros para Cristo
  •   Todos se envolviam com a política

À base dos dados acima, é provável que muitos pentecostais se apressem a argumentar que nem todos os que professam ter e manifestar os dons do espírito realmente têm tais dons. Mesmo que essa afirmação fosse verdadeira, a pesquisa acima mostrou uma porcentagem muito alta dos que afirmavam ter dons carismáticos, mas não viviam segundo os preceitos cristãos. Assim, segundo tal argumentação, uma grande parte dos que alegam ter dons são impostores.

Uma terceira razão da reticência em relação a tais dons tem que ver com o comportamento manifestado durante o período em que tais pentecostais alegam estar recebendo o dom do espírito. Alguns rolam pelo chão, babam, contorcem-se, gritam desvairadamente e ficam com a face terrivelmente desfigurada. Como tudo isso é diferente do comportamento do cristão do primeiro século chamado Estêvão. Quando estava “cheio de espírito santo”, era nítido aos seus opositores que “o seu rosto era como o rosto dum anjo”. (Atos 6:15; 7:55) O espírito santo deu a Estevão sobriedade, paz e tranquilidade incomuns, algo bem diferente do que se observa nas exibições bizarras dos que professam receber os dons espirituais.

Portanto, vamos analisar a partir de agora o que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto. Neste artigo, responderemos a três perguntas essenciais: (1) Por que foram dados os dons no passado?

(2) Como se manifestavam?

(3) Até quando durariam?

Por que foram conferidos os dons do espírito aos cristãos do primeiro século?

Tais dons foram concedidos por duas razoes básicas: para a propagação do recém-formado cristianismo e para confirmar que esse era a partir de então o modo correto de Deus ser adorado. (Atos 1:8; Heb. 2:2-4) Os primitivos cristãos, em geral, eram tidos pela sociedade da época como “indoutos e comuns”, sabendo falar, mormente, o seu próprio idioma. No entanto, tinham diante de si uma obra colossal de pregação “até a extremidade da terra”. (Atos 1:8, NM, n.) De modo que o dom de línguas, manifestado primeiramente no Pentecostes de 33 EC, impulsionou tal obra. (Atos 2:1-11, 41) Ademais, Jeová havia usado a nação de Israel sob o pacto da Lei mosaica como o arranjo aprovado de aproximação a Ele por quase 1.600 anos. Portanto, seria de esperar que ele confirmasse de forma visível a mudança para uma nova forma de adoração.[3]

Como eram os dons de Deus no passado?

Algumas características marcantes de tais dons podem ser alistadas abaixo:

      As curas eram completas e instantâneas. – Atos 3:1-8; 5:15, 16.

      Os milagres eram concedidos não apenas aos que tinham fé. A cura realizada por Pedro, registrada em Atos 3:1-8, mostra que a pessoa que fora curada não esperava tal cura. Além disso, as pessoas falecidas que foram ressuscitadas não poderiam ter exercido fé, uma vez que estavam mortas. (Atos 9:36-42; 20:9-12) De fato, quando os apóstolos não conseguiram realizar um milagre, Jesus indicou que faltou fé, não à pessoa que precisava do milagre, mas aos apóstolos. – Mat. 17:14-16, 19, 20.

     O dom de línguas não era falatório que ninguém entendia. Por ocasião da primeira ocorrência do dom de línguas, as pessoas das nações presentes ao Pentecostes relataram: “Como é que ouvimos cada um de nós o seu próprio idioma em que nascemos? Nós os ouvimos falar em nossas línguas sobre as coisas magníficas de Deus.” (Atos 2:8, 11) Mesmo nas reuniões cristãs daquele tempo, o dom de línguas deveria ser manifestado de modo a produzir edificação nos cristãos. Note como o espírito santo orientou o apóstolo Paulo a dar as diretrizes que assegurariam tal edificação. Paulo escreveu:

    “A menos que vós, por intermédio da língua, pronuncieis palavras facilmente entendidas, como se saberá o que se fala? Estareis, de fato, falando ao ar.” – 1 Cor. 14:9.

“Se ofereceres louvor com um dom do espírito, como é que o homem ocupando o assento da pessoa comum dirá ‘amém’ aos teus agradecimentos, visto que não sabe o que estás dizendo?” – 1 Cor. 14:16.

“Portanto, se a congregação inteira se reunir num só lugar e todos falarem em línguas, mas entrarem pessoas comuns ou incrédulos, não dirão que estais loucos?” – 1 Cor. 14:23.

Os três versículos acima mostravam a necessidade de as línguas faladas milagrosamente serem entendidas. Para assegurar que isso acontecesse, Paulo deu a seguinte diretriz:

 “E, se alguém falar numa língua, seja isso limitado a dois ou no máximo três, e por turnos; e traduza alguém. Mas, se não houver tradutor, então fique calado na congregação e fale consigo mesmo e com Deus.” – 1 Cor. 14:27, 28.

     A instrução era óbvia: em cada reunião cristã, deveria haver no máximo três ocorrências de dom de línguas; cada um dos três cristãos com o dom deveria falar por “turnos”, isto é, cada um na sua vez, após o que deveria haver alguém com dom de tradução, para o benefício de todos os presentes a tal reunião.  Certa testemunha de Jeová, que em seu ministério de evangelização entrevistou representantes de muitas dezenas de igrejas pentecostais durante um período de trinta anos, disse NUNCA ter encontrado uma religião pentecostal que seguisse a diretriz apostólica de 1 Coríntios 14:27, 28. Em todas as religiões pentecostais analisadas, sem exceção, várias pessoas – muitas vezes quase a inteira congregação – falavam em línguas no mesmo culto, e ao mesmo tempo!

Isso levanta sérias indagações: Se tais dons são realmente manifestações do espírito santo, como é possível que o espírito santo tenha ordenado uma diretriz na Bíblia, no primeiro século, e agora siga outra diretriz? Lembre-se de que tal diretriz foi ordenada para manter a ordem e para produzir edificação. O que é testemunhado nas igrejas pentecostais em nossa época evidencia justamente o contrário!

Portanto, uma comparação sóbria entre os dons dos tempos apostólicos e os atuais torna patente uma astronômica diferença entre os dois. Resta agora analisarmos a terceira pergunta essencial proposta:

Até quando os dons miraculosos durariam?

Para obtermos a resposta a essa pergunta, precisamos entender primeiro como tais dons eram transmitidos. Encontramos a resposta em Atos, capítulo 8. Os versículos 5-8 descrevem o trabalho de evangelização feito pelo discípulo Filipe em Samaria. Visto que Filipe possuía os dons do espírito, ele realizou muitos “sinais”, entre os quais estavam as curas físicas. Mas, como poderiam os novos conversos também receber tais dons? O relato prossegue: “Quando os apóstolos em Jerusalém ouviram que Samaria havia aceito a palavra de Deus, mandaram-lhes Pedro e João [que eram apóstolos]; e estes desceram e oraram para que recebessem espírito santo. Porque não tinha ainda caído sobre nenhum deles, mas eles tinham sido batizados apenas no nome do Senhor Jesus. Impuseram-lhes então as suas mãos e eles começaram a receber espírito santo.” – Atos 8:14-17.

É, pois, manifesto que os dons eram transmitidos através dos apóstolos.Inclusive, um recém-convertido de nome Simão reconheceu isso. (Atos 8:18) Portanto, uma vez que os apóstolos tivessem morrido, aqueles que haviam recebido os dons poderiam usar tais dons, mas não haveria a transmissão deles a outros discípulos. E, uma vez que tivessem morrido os que ainda detinham os dons, estes cessariam. É o que a Bíblia nos informa em 1 Coríntios 13:8-13:

“O amor nunca falha. Mas, quer haja dons de profetizar, serão eliminados; quer haja línguas, cessarão; quer haja conhecimento, será eliminado. Pois temos conhecimento parcial e profetizamos parcialmente; mas, quando chegar o que é completo, será eliminado o que é parcial. Quando eu era pequenino, costumava falar como pequenino, pensar como pequenino, raciocinar como pequenino; mas agora que me tornei homem, eliminei as características de pequenino. Pois, atualmente vemos em contorno indefinido por meio dum espelho de metal, mas então será face a face. Atualmente eu sei em parte, mas então saberei exatamente, assim como também sou conhecido exatamente. Agora, porém, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.”

Assim, os dons espirituais – que incluíam o ‘dom de profetizar’, o dom de falar em “línguas” e o conhecimento revelado – ‘cessariam’ de forma natural, e não por uma interrupção súbita. Paulo explicou o motivo disso: os dons estavam associados à infância do cristianismo; eram “características de pequenino”. Quando a Bíblia estivesse completa, no fim do primeiro século, não haveria mais necessidade de tais dons. A partir de então, “toda a Escritura” seria suficiente para tornar “o homem de Deus … plenamente competente, completamente equipado para toda boa obra”. (2 Tim. 3:16, 17) Mas, o que se quer dizer com a expressão “quando chegar o que é completo, será eliminado o que é parcial”? O que se quer dizer com “o que é completo”?

Essa é a tradução do termo grego tò téleion, literalmente “a coisa perfeita”.(Interlinear do Reino) Quando aplicado a pessoas, téleios se refere a alguém plenamente maduro, principalmente em sentido espiritual. (1 Cor. 14:20; Efé. 4:13; Heb. 5:14) Usando a ilustração de Paulo, que compara o recém-formado cristianismo como um “pequenino”, fica claro que “o que é completo” é uma alusão ao tempo em que o cristianismo verdadeiro atingisse a plena madureza espiritual, algo que ainda ocorrerá no futuro. Significa isso que os dons continuariam em nossos dias, contradizendo o que já ficou patente por intermédio de outros textos bíblicos?

Não, não significa. A Bíblia é completamente harmoniosa. Note que a Bíblia não vincula o fim dos dons com a chegada ‘do que é completo’. Falando sobre a mudança que ocorreria quando chegasse “o que é completo”, Paulo declarou: “Atualmente vemos em contorno indefinido por meio dum espelho de metal, mas então será face a face. Atualmente eu sei em parte, mas então saberei exatamente, assim como também sou conhecido exatamente.” (1 Cor. 13:12) Note que Paulo não disse: ‘Quando chegar o que é completo, acabarão os dons.’ Ele disse: “Então saberei exatamente.” Por conseguinte, o “que é completo” tem que ver como o pleno entendimento da Palavra de Deus. Assim, o que era “parcial” eram o conhecimento e o entendimento das profecias e do propósito de Deus. Isso é tornado claro pelas palavras de Paulo: “Atualmenteeu sei em parte.” O conhecimento e o entendimento parciais é que acabariam quando chegasse “o que é completo”.

Embora os dons pertençam ao período apostólico e tenham acabado há muito tempo, junto com tal período, o conhecimento e o entendimento parciais que temos hoje só serão preenchidos quando todas as profecias bíblicas se cumprirem, fornecendo-nos então o pleno entendimento de seu significado, bem como quando Jeová prover ao Seu povo o pleno entendimento de todas as verdades preciosas contidas em Sua Palavra.

Assim, obtivemos a resposta a três perguntas essenciais, ligadas a esse tema:

(1) Por que foram conferidos os dons do espírito?

(2) Como eram transmitidos?

(3) Até quando durariam?

As respostas bíblicas a tais questões suscitam outra importante pergunta:

Que dizer dos alegados dons atuais?

Uma vez que os verdadeiros dons do espírito cessaram há muito tempo, o que explica essa clara distorção de tais dons nas igrejas pentecostais? Charlatanismo? Embora essa premissa não possa ser desconsiderada, os fatos mostram que há algo mais envolvido.

Há algumas décadas, alguns pesquisadores nos Estados Unidos decidiram estudar o estranho fenômeno das manifestações dos alegados dons espirituais nas igrejas pentecostais da cristandade. Eles se ativeram particularmente na glossolalia, que é o nome dado ao comportamento de falar em línguas. Para ajudá-los, eles convidaram um poliglota chinês, solicitando que ele visitasse diversas igrejas pentecostais para analisar o fenômeno. E isso foi feito. Após isso, foi pedido ao poliglota que ele relatasse suas conclusões. O chinês disse que grande parte do que ele ouviu em tais igrejas era um falatório ininteligível. Mas acrescentou que alguma coisa falada consistia realmente de idiomas conhecidos por ele. Do que ele pôde entender, afirmou o poliglota, algumas frases estavam em dialetos africanos e outras, em dialetos chineses. Quando foi solicitado que ele traduzisse o que havia entendido, ele se recusou a fazê-lo. Por quê? Porque, conforme ele declarou, tratava-se de palavras de baixo calão!

     Quando pessoas comuns, que sabem quando muito o seu próprio idioma, falam palavras de baixo calão numa língua estrangeira que nunca estudaram nem sequer ouviram, a que conclusão o leitor sincero chegaria? O atual pentecostalismo seria apenas charlatanismo, ou está envolvido algo mais profundo e aterrador – a influência de forças espirituais iníquas tentando enlaçar pessoas por se manifestarem sob o ardil duma roupagem falsamente cristã?

 

fonte: blog o Apologista da verdade

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