Carregou Jesus um “patibulum” ou uma “estaca” sob a qual foi suspenso? PARTE I


PatibulumTraducaodonovomundodefendida

Por Queruvim

Patibulum é o nome em latim dado ao jugo carregado por criminosos e outros que eram subjugados sob mão forte.   Patibulum nem sempre era uma “barra transversal”. Referia-se também a uma furquilha ou “furca” * Este artigo considerará o uso do patibulum  descrito na literatura em grego clássico e Koiné . Avaliaremos também textos antigos, desde Homero(8º Séc. A.E.C) até o 3º século E.C, alguns escritos pouco depois da morte do último dos apóstolos. E nos deteremos em alguns textos, que segundo alguns, apoiam o conceito de que Jesus foi suspenso em uma cruz.

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Alguns alegam que staurós é um nome genérico que também era usado com referência a um objeto cruciforme. É isto correto? Considerarei aqui também a alegação de que a cruz tradicional “não foi adotada pelos cristãos somente no 4º século, mas antes disso”.  Examine com atenção este assunto, recorrendo a textos em grego antigo afim de tirar suas próprias conclusões. Alguns costumam zombar deste tipo de pesquisa, por afirmarem que “não importa como Cristo morreu, mas sim que ele deu sua vida por nós”. Outros afirmam de modo insensível que este estudo é “sem valor e apenas uma curiosidade histórica”. Mas o sacrifício de Cristo será inútil para aqueles que praticam a idolatria. Surge então a seguinte pergunta pertinente:  É o uso da cruz,  ainda que apenas como um ornamento para o ambiente na igreja, uma prática idólatra? Espero que examinem este artigo com detida atenção, assim como muitos já tem feito, pois este não é um assunto de somenos importância. Em outros artigos desta página, já consideramos amplamente a conclusão de enciclopedistas e lexicógrafos sobre o significado das palavras usadas na Bíblia com referência ao instrumento de execução de Cristo. Este artigo irá além disso.

É com prazer que anuncio uma série de 4 artigos a respeito deste tema.

Serão bem mais aprofundados e atuais. Pedimos então, a quem ainda não leu o artigo sobre Cruz ou Estaca, ou ainda “Resposta a um artigo crítico sobre staurós“, que o faça, a fim de avançar num exame ainda mais aprofundado que se focará na pesquisa investigativa de  testemunhas textuais da antiguidade. Cabe um ALERTA: Não existe valor  em supostos “estudos” feitos sobre este assunto, mas que na verdade são escritos apenas para fazerem “bullying” teológico contra uma religião em particular.  Paulo diz que `ainda que eu falasse a língua dos homens sem amor nada sou´. Já viu um espelho com imagem distorcida?  Assim são os chamados “estudos” que ao invés de se dedicarem ao tema sobre a cruz, tem como objetivo ridicularizar pessoas de outra religião. O preconceito vai mais além disso. Há obras falando “sobre a Cruz”,  no mediterrâneo, estudos “sobre a cruz” e incontáveis “pesquisas” com farto material falando supostamente sobre a cruz, quando na verdade suas fontes, (no texto original em grego as quais pesquisam), não falam realmente da cruz ! Veremos como isso pode ser possível.  Em 1870 o erudito Jacob Stockbauer investigou este assunto e concluiu que devido à rica diversidade de formas de execuções conforme descritas em textos antigos, encontrou dificuldades em traçar referências à crucificação. (STOCKBAUER, Kunstgeschichte des Kreuzes, 8 η. ι.7-8)

Atualmente, alguns fazem pesquisas superficiais partindo de uma coleta seletiva de textos e até mesmo adulterando traduções do latim, (como poderá ver no artigo) a fim de contestarem eruditos sérios que se debruçaram durante anos a fim de investigarem o assunto, e na ânsia de “provar a crucificação” conforme tradicionalmente entendida, chegam a conclusões que não refletem estudo abalizado ou bem fundamentado. Outros acreditam erroneamente que qualquer escrito registrado por volta do tempo de Cristo, quer antes, ou depois, são autoritativos, e se confundem numa coisa – Somente a Bíblia Sagrada é autoridade de peso e serve de confirmação definitiva para se chegar ao “modelo de palavras salutares da verdade”.2 Tim. 1:13 Os cristãos verdadeiros mantêm-se afastados da adoração falsa, rejeitando os falsos ensinos religiosos. Isso significa que evitamos nos expor a programas religiosos no rádio e na televisão, bem como a literatura religiosa seja na internet ou em outras fontes, coisas que promovem mentiras sobre Deus e sua Palavra. (Salmo 119:37) Agir assim nos protegerá contra sermos levados por alguém “como presa sua, por intermédio de filosofia e de vão engano, segundo a tradição de homens, segundo as coisas elementares do mundo e não segundo Cristo”. — Colossenses 2:8.

Alguns pesquisadores argumentam que Jesus ao ser conduzido ao local de sua execução, carregava um patibulum.  Esta afirmação postulada por alguns, deu origem à conclusão de que na hora da suspensão Jesus foi então pregado em uma estaca previamente fixada no solo configurando o formato da cruz tradicional. A Bíblia Sagrada devia ser a autoridade para se entender corretamente como tudo aconteceu. O próprio Jesus alertou os cristãos contra `invalidar a palavra de Deus por causa da tradição religiosa´.( Marcos 7:13) Apesar da afirmação de muitos de que a Bíblia é a “inerrante palavra de Deus”, ainda assim insistem em rejeitar declarações diretas da Bíblia a respeito deste assunto ao passo  que promovem o uso da cruz na adoração. (Para um estudo mais simples sobre o assunto clique aqui) Não são poucos os que se ancoram em textos muito antigos a fim de tentarem de alguma forma convencer os leigos que Jesus de fato foi pendurado em uma cruz tradicional, muitos destes escritos produzidos algumas décadas após a morte dos apóstolos no período do surgimento gradual da grande apostasia, ao passo que ignoram totalmente as Escrituras Gregas Cristãs e o testemunho dos apóstolos a respeito do exato objeto usado no calvário. Há mais de 40 anos G. Ricci afirmou que Jesus carregou um patibulum na via-crúcis. Sua fonte de pesquisa porém não foi a Bíblia, mas sim o chamado Sudário de Turim. Quais são alguns dos escritos que supostamente apoiaria o uso de um patibulum  ou trave transversal no cenário da execução de Jesus?   Citarei aqui alguns destes. Este artigo é um resumo para a compreensão da“teologia crucis” das Escrituras Gregas Cristãs, comumente chamado “Novo Testamento”. Lidarei aqui com o problema de quais textos descrevem a punição por crucificação e como estes o fazem. Irei considerar como os principais textos pré-cristãos descrevem a punição sofrida por Cristo a partir de uma abordagem filológica. Abordarei o texto das antigas escrituras hebraicas, o chamado “Velho Testamento” e textos judaicos antigos. O erudito e humanista Justus Lipsius publicou sua obra De Cruce in 1593/4, sendo o primeiro a abordar uma discussão erudita a este respeito. Convido os leitores, a entrarem nesta empreitada e examinarem por si mesmos o que tinham em mente os escritores do tempo em que o grego koine era língua falada e o idioma internacional daquele período de tempo, e tirem suas próprias conclusões a partir da tradução que faço de textos gregos de vários autores. Ao lermos textos bem antigos, nosso objetivo deve ser o de captar exatamente o que a fonte antiga diz e evitar a qualquer custo importar algum pensamento relacionado com a crucificação de Jesus e “enxertá-lo” no texto em consideração. Tendo isto em mente, estudaremos o material apresentado nesta investigação com a ajuda e ferramentas da metodologia erudita nas áreas de filologia e semântica. (Para um discussão a respeito do significado de “filologia” em contraste com “linguística” veja BROWN “Filologia” 127-47).   DCLP647c2a Ao lado pode ver a imagem apresentada na obra de  Justus LipsiusDe cruce 1595. Esta imagem representando a crux foi corajosamente apresentada pela Testemunhas de Jeová, como sendo o instrumento sob o qual Cristo foi morto. Comentando isso certa página de opositores afirmou: “Esta imagem foi a única que a Torre de Vigia mostrou, a fim de dar a falsa impressão que Lipsius afirmou ou cria que Jesus foi pendurado em uma estaca simples e não em uma cruz”. Esta declaração dizendo que pretendia-se dar ” a falsa impressão que Lipsius afirmou” isso ou aquilo, é uma mentira! Elas apenas aproveitaram um reconhecimento da boca do próprio autor da referida obra que é relevante ao assunto, sem que isso signifique que o autor forçosamente respalde ou apoie as conclusões das Testemunhas de Jeová. O Apêndice 5 C da Tradução do Novo Mundo com referências, em sua edição de 1986 não diz nada disso a respeito da opinião das Testemunhas de Jeová. Antes, lemos ali: ” Nos escritos de Lívio, historiador romano do primeiro século AEC, crux significa apenas uma estaca. “Cruz” é apenas um significado posterior de crux. Uma simples estaca para se fixar nela um criminoso era chamada em latim de crux símplex. Tal instrumento de tortura foi ilustrado por Justo Lipsio (1547-1606) no seu livro De cruce libri tres, Antuérpia, 1629, p. 19. A fotografia da crux simplex na nossa p. 1518 é uma reprodução exata tirada de seu livro“. TNM Edição de 1986  Observou como o texto diz? “Tal instrumento”, não se diz “somente este instrumento é ilustrado” ou coisa do gênero. Portanto, após mostrar que no grego do N.T a palavra staurós tem a acepção básica de “estaca” faz-se referência à crux simplex. Justamente um tipo de “cruz” omitida pelos críticos das Testemunhas de Jeová. Poucos saberiam que um homem pregado em um poste é o mesmo que um homem pregado em uma crux, caso as Testemunhas de Jeová não tivessem trazido isto à tona! Se Justus Lipsius acreditava que Cristo morreu numa cruz no sentido moderno, isto não vem ao caso. É a Cristandade que não apresenta o sentido antigo de crux como se referindo a um simples poste. Justus Lipsius falou uma verdade em seus estudo filológicos que tem sido escondida. Isso sim é desonesto, esconder a verdade. A Bíblia não apresenta indicação alguma de que Jesus foi pendurado em um instrumento cruciforme. Cabe aos críticos das Testemunhas de Jeová apresentarem evidência disso.(Algo que jamais conseguirão fazer). O ônus da prova recai sobre eles.

Dionísio de Halicarnasso

 fala da cruz? 

Dionísio de Halicarnasso (1º século A.C.) escreveu em Antiguidades Romanas: οί δ’ άγοντες τον θεράποντα έπι τήν τιμωρίαν τάς χείρας άποτείναντες άμφοτέρας και ξύλω προσδήσαντες παρά τά στέρνα τε και τους ώμους και μέχρι τών καρπών διήκοντι παρηκολούθουν ξαίνοντες μάστιξι γυμνόν οντά. “Um cidadão romano de posição não obscura, mandando um de seus escravos ser posto para morrer, o entregou a seus companheiros de escravidão para levá-lo, e para que todos pudessem ver sua punição, os direcionou a puxá-lo pelo Fórum e qualquer outra parte mais frequentada da cidade enquanto o chicoteavam e que ele deveria ir à frente da procissão à qual os romanos estavam conduzindo na época em honra ao deus. Os homens foram ordenados a levar o escravo à sua punição, tendo seus braços Cruz e Patibulumabertos e pregados a um pedaço de madeira (tas kheiras apoteinantes amphoteras kai xuló prosdésantes) o qual estendia-se por suas costas e ombros até seus punhos, seguindo-o, cortando seu corpo nu com chicotes Dion. Hal. Ant. Rom. 7.69.2. (GRIFO é nosso) Apoia esta declaração de Dionísio uma conclusão de que o instrumento usado no caso de Cristo era de fato uma Cruz e que Jesus teria carregado um patibulum? Não! Por vários motivos.

  • A descrição não se harmoniza com a Bíblia, uma vez que nas Escrituras Sagradas lemos que Jesus foi ajudado por Simão a carregar “a sua estaca” (Mat. 27:32) e puseram nele “a estaca” de Cristo para carregar. A maioria das traduções da Bíblia verteram τὸν σταυρὸν (o staurós), por “a cruz”. Nestas versões fica ainda mais evidente que tanto Simão quanto o Cristo, carregaram não um patibulum (trave transversal) mas sim o próprio instrumento sob o qual Cristo foi pendurado!  (Observe Luc.23:26 na Almeida). João 19:17 também na versão Almeida fala de Jesus e diz: “E, levando ele às costas a sua cruz”.  Observe como algumas traduções verteram Mat. 27:32:

Versão:  João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada

“Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz”.

Versão: English: King James Version

“And as they came out, they found a man of Cyrene,

Simon by name: him they compelled to bear his cross”. (sua cruz)

Além dissoa declaração de Dionísio de Halicarnasso não descreve o método geral de execução usado no primeiro século. Como ele mesmo diz seu relato foi a respeito de “um cidadão romano” que morreu daquela maneira. Não é um relato conclusivo ou específico sobre o instrumento usado no caso de Jesus. Alguns agregam tal relato de Dionísio à sua análise do cenário da execução de Jesus, como se fosse o mesmo cenário! Este relato sequer era uma descrição de como sempre ocorriam suspensões naquele tempo. De fato, o erudito Justus Lipsius em sua obra De Cruce Libri Tres, coloca o patibulum na seção de modus rarus de execução. O texto escrito por Dionísio era um relato contando um fato ocorrido nos dias em que os Romanos temiam o cumprimento dos sonhos de certo fazendeiro chamado Titus Latinius. 1  Achavam que a morte do homem que carregava o patibulum, durante um festival dedicado ao Deus Romano, estava relacionada com o cumprimento dos sonhos do fazendeiro Titus. Não era a descrição de como sempre se dava a “crucificação”. Nada no texto sugere que o escravo foi crucificado após a tortura. Nada no texto sugere que o ξύλον era uma barra horizontal de uma cruz, como corretamente proposto pelo erudito Stockbauer. (STOCKBAUER, Kunstgeschichte). Há de fato, um relato similar no final de Antiguidades Romanas:

κυρωθέντος δέ του περί της τιμωρίας δόγματος πάτταλοί τε κατεπάγησαν έν τή άγορφ, και παραγόμενοι κατά τριακόσιους άνδρας, περιηγμένοι τους αγκώνας οπίσω προσεδοΰντο τοις παττάλοις γυμνοί· έπειτα μάστιξιν αικισθέντες απάντων όρώντων άπεκόπτοντο τω πελέκει τους υπό ταις κε- φαλαΐς νωτιαίους τένοντας· και μετά τούτους έτεροι τριακόσιοι, και αύθις άλλοι τοσούτοι διεφθάρησαν, οί σύμπαντες τετρακισχίλιοι και πεντακόσιοι, και ουδέ ταφής ετυχον, άλλ’ έλκυσθέντες έκ της αγοράς εις άναπεπταμένον τι προ της πόλεως χωρίον ύπό οιωνών και κυνών διεφορήθησαν.stauros-original-crux

“Quando o decreto a respeito da punição foi ratificado, estacas [πάτταλοι] foram fixadas no Fórum, e homens sendo trazidos à frente em grupos de trezentos, tendo seus cotovelos dobrados para trás, foram amarrados [προσεδοΰντο] nus às estacas [παττάλοις]. Então, tendo sido açoitados com chicotes à vista de todos, tiveram os tendões de trás dos pescoços cortados com um machado. E depois deles outros trezentos, e novamente outro grande [grupo] foi destruído. Ao todo quatro mil e quinhentos.E nem mesmo receberam um enterro, mas sendo arrastados do Fórum em um lugar aberto em frente da cidade, foram dilacerados por cães e aves espalhados uns pra lá outros para cá”.

Neste texto Dionísio usa a palavra grega πάσσαλος de forma incomum, evidentemente no sentido de vigas ou postes de madeira e não como “espetos” que é seu significado convencional. Em outro relato Dionísio emprega a palavra grega suspensão [άνεσκολοπίσθησαν] mas não se diz nada sobre a forma em que os condenados foram suspensos.

και αύτίκα oi μέν έκ τών οικιών συλληφθέντες, οί δ’ έκ τών αγρών άναχθέντες, όσους άπέφαινον οί μηνυταί μετασχείν της συνωμοσίας, μάστιξι και βασάνοις αικισθέντες άνεσκολοπίσθησαν άπαντες, ταΰτα έπι τούτων έπράχθη τών υπάτων. (Ant. Rom. 5.51.3)

  “E imediatamente, aqueles que foram retirados de suas casas e os trazidos do interior do país, tantos quantos os informantes declararam serem parte da conspiração, depois de serem açoitados e maltratados com tortura, foram todos suspensos [άνεσκολοπίσθησαν]”.

  Não houve “crucificações” mas o uso de estacas para executarem os condenados depois de tortura. Fica difícil, portanto, supor que no relato do escravo carregando o madeiro ou patibulum houve alguma “crucificação”. Em Antiguidades Romanas no livro 12, Dionísio emprega a palavra grega staurós, a mesma usada nas Escrituras Sagradas quando diz:

τῆς δὲπράξεως περιφανοῦς γενομένης συλληφθέντες οἱ πρῶτοι συνθέντες τὴν ἐπιβουλὴν καὶ μαστιγωθέντες ἐπὶ τοὺς σταυροὺς ἀπήχθησαν

“Quando a conspiração foi revelada, os líderes foram presos e depois  açoitados em estacas

Todos os textos em inglês que vejo traduzem staurous neste texto  por “crucificados”. Em muitos destes chamados “estudos” nada se diz sobre o emprego da palavra com sentido básico de “estaca”. Omite-se propositalmente tal informação ao passo que se traduz de modo generalizado por “crucificação”, “crucificar” e coisa do tipo. Nada falam sobre este assunto. Encontrei apenas dois casos daquilo que se supõe ser “crucificações” nos escritos de Dionísio, um dos casos foi o considerado acima (Ant. Rom. 5.51.3) , este diz apenas que pessoas foram “suspensas” [άνεσκολοπίσθησαν] e o último , no livro 12, diz que isto era feito em “estacas”. Estas duas passagens tem sido traduzidas enganosamente e entendidas precocemente como se referindo ao ato de “crucificar”.

CONCLUSÃO a respeito dos escritos de Dionísio

Portanto, ao examinarmos os escritos de Dionísio, vemos um exemplo  de como os “estudos” que favorecem o uso da cruz tradicional, estão em muitos casos predispostos a promover não somente o uso da cruz mas também o de perpetuar a tradição. Ao invés de apoiar o conceito de uma cruz tradicional, Dionísio de Halicarnasso fala sim do costume de se usar postes ou vigas e não cruzes em condenações. Não oferece “prova” ou “apoio” algum ao conceito da crucificação tradicional. Ao prosseguirmos em nossa pesquisa investigativa, observaremos que o mesmo ocorre em muitos outros textos antigos citados pelos defensores do conceito de que Jesus foi pendurado em um objeto em formato cruciforme.  Flávio Josefo (37 ou 38— ca. 100escreveu que “os soldados por raiva e ódio se divertiam pregando seus prisioneiros com diferentes posturas” 2. Fica claro que a forma de suspensão variava. Na “crucificação” dos 6000 prisioneiros de guerra por Crasso na Via Ápia entre Roma e Cápua, o mais provável é que tenham sido pendurados usando somente um poste vertical. Apiano que viveu no 1º século e escreveu a respeito deste evento , que chamou de  “triste espetáculo”,  sequer usa a palavra “cruz”  ao narrar este acontecimento. Antes, emprega o verbo κρέμασις (translitera-se krémasis: que significa “suspender, pendurar”). 3 Vale ressaltar que ao dizermos “crucificar” não estamos nos referindo a pendurar alguém em um instrumento em forma de cruz. Na verdade, a expressão “crucificação” é em si mesma um tanto desencaminhante, uma vez que escritos em grego desde Homero (9º século a.C)   até o 3º século E.C, empregam a palavra grega staurós com o significado claro de “estaca” ao passo que no texto grego do “Novo Testamento”  jamais ocorre a palavra “cruz” e sim “estaca”.

Titus Livius.pngO Dicionário em Latim de Lewis e Short (em inglês) dá como significado básico de crux “uma árvore, armação, outros instrumentos de execução de madeira”. Nos escritos do Historiador Romano Titus Livius Patavinus (64/59 A.E.C- 17 E.C), crux significava uma mera estaca. Alguns tem contestado isso. No entanto, apresentarei claras evidências disso aqui neste artigo bem como os questionamentos a respeito da diferença entre CRUX e PALUS.   Figura abaixo: “Crux simplex”, (termo inventado por Justus Lipsius) uma simples estaca de tortura de madeira, de acordo com a palavra Grega clássica “staurós” (“σταυρός”), por Hermann Fulda, Das Kreuz und die Kreuzigung (A Cruz e a Crucificação)   Um erudito imparcial e objetivo não usaria a expressão “crucificação” de modo irrestrito e sem ressalvas.  Claro que não a omitiria a fim de  esclarecer os leigos.  Defensores da crucificação empregam o termo “crucificar” em toda sua argumentação e até mesmo em suas traduções de textos em latim e grego, quando sabemos que não existe apoio algum para esta repetição tipo lavagem cerebral. O uso da terminologia “crucificação”em artigos escritos em sites e blogs, predispõe/condiciona os leitores a concluírem o que eles ainda precisam comprovar. É uma falácia de definição circular onde definem um termo usando o próprio termo que está sendo definido. O termo “crucificação” é um erro terminológico generalizado em artigos e infelizmente até mesmo léxicos que se propõem a esclarecer, quando na verdade estão perpetuando equívocos. 4 Alguns podem objetar argumentando que “staurós” de fato tinha um significado original de “estaca”, mas que “também pode ser traduzido por cruz”. Afirmamos porém, que assim como muitos políticos mentem, enganam e manipulam desonestamente as coisas a seu favor, muitos teólogos evangélicos ou “crentes” não são de confiança e fica duvidoso acreditar que alguém que verte todo tempo άνασκολοπίζειν (que  significa “suspender em uma estaca pontiaguda”) por “crucificar” não sejam diferentes de políticos embusteiros. O Apóstolo João, uma testemunha ocular da tortura e execução de Cristo registrou em João 19:17 que Jesus levou ele mesmo “a estaca”. As versões acima dizem que Cristo levou ele mesmo “a cruz”. Qualquer representação cinematográfica ou outra que mostre Jesus carregando apenas um patibulum não está em harmonia com a Bíblia. A menos que acreditemos que um patibulum era uma “cruz”.  Também, podemos concluir isso não somente pelo texto de João 19:17, mas é óbvio que pela lógica Jesus carregou o próprio instrumento de execução sob onde foi pendurado. Por que afirmamos isso?  Devia ser algo bem pesado e não uma simples barra transversal, tanto é assim que Simão foi designado a fim de ajudar Jesus a carregar todo aquele peso. Olhe com atenção a imagem no início deste artigo onde vemos um desenho feito a mão de um homem carregando um patibulum. Certamente que Jesus não carregou um patibulum, visto que Jesus, um homem perfeito e que executou trabalhos braçais durante muitos anos, não teria dificuldades maiores para carregar apenas uma trave transversal. É evidente que ele carregou algo bem mais pesado. Como vimos acima, a Bíblia é quem diz que Jesus carregou seus próprio instrumento de execução. Mas não seria o próprio instrumento de execução, a estaca, muito além do peso para alguém poder carregá-la? Não, visto que para um único homem, como Simão de Cirene, levar uma estaca de tortura, como dizem as Escrituras, é perfeitamente razoável, pois, se ela era de 15 cm de diâmetro e 3,50 m de comprimento, provavelmente pesaria pouco mais de 45 kg. Abaixo temos uma representação artística do 5 século preservada em Roma, considerada uma das mais antigas esculturas representando a crux como era originalmente. Por ser uma representação artística da crux mais comum no primeiro século, tem sido comumente ocultada. Death of Marsyas Alguns pesquisadores parciais tem estudado o instrumento no qual Jesus foi executado. Longe de apresentarem uma pesquisa objetiva e focada no assunto  visando descobrir exatamente o que a evidência mais plausível apresenta, estudam com o objetivo sádico de ridicularizar as Testemunhas de Jeová ou de confirmarem aquilo em que já acreditam. Interessante que na ânsia de rejeitar a qualquer custo a declaração simples da Bíblia de que Jesus morreu numa estaca(staurós), apresentam textos antigos que supostamente falam de “staurós” como sendo um instrumento de execução que “podia ter diversos formatos” ao passo que em seus livros e de modo contraditório só apresentam o formato de cruz. Apresentam diversos textos numa pesquisa seletiva e tendenciosa, escritos em épocas e lugares diferentes, numa tentativa de convencerem seus paroquianos que Jesus de fato carregava um patibulum ou até mesmo uma cruz tradicional, a caminho de sua execução.

Terminologia e definições

Na presente investigação irei recorrer a textos em Hebraico, Aramaico, Latim e Grego, tanto Koiné como clássico ou mesmo Grego Arcaico. O chamado Novo Testamento emprega staurós e xylon ao se referir ao objeto sobre o qual Cristo foi pendurado. σταυροΰν (stauron) pode ocorrer com ou sem a preposição ανα – (aná), que indica um movimento para cima. Verá frequentemente em textos não bíblicos o uso de άνασκολοπίζειν  anaskilopízein (“suspender em estaca pontiaguda”), portanto, άνασταυροϋν e  άνασκολοπίζειν estão relacionadas. E oferecem evidência em si mesmas a respeito do significado da antiga palavra crux. Em hebraico não existe na Bíblia (no V.T) um termo para se referir a moderna cruz. A parte do chamado Velho Testamento emprega o substantivo עץ (se lê “ets”que significa “madeiro” ou “árvore”. Os textos em grego empregam os correlativos ξύλον, δένδρον e lignum arbor. Veremos o emprego de σκόλοψ,  semanticamente aproximado de staurós bem como de χάραξ, stipes, furca e patibulum. Em Atos 5:30 emprega-se κρεμαννύναι (kremannynai), este verbo também é usado ao se referir à crucificação de Cristo e refere-se ao ato de “pendurar, suspender” έπι ξύλου (sobre um madeiro). A Septuaginta verteu a frase hebraica   תָלָה  עַל-עֵץ (talah al etz) “pendurar sobre um madeiro” empregando o verbo grego κρεμαννύναι.  Gen. 40.19; Deut. 21.22; Jos. 8.29, 10.26; Ester 5.14, 8.7 (LXX). O equivalente em latim  a suspender ou pendurar é suspendere e tollere, que apresentam a mesma gama de significado.  κρεμαννύναι , com ou sem o prefixo ανα, tem sido mencionada por eruditos da cristandade como se referindo à crucificação conforme entendida no sentido moderno. Neste estudo demonstrarei exatamente a definição antiga do termo stauros e apresentarei evidência do sentido original. Consideraremos o importante subtópico respondendo a seguinte pergunta: “É correto dizer que staurós significava também algo mais que uma simples estaca”? A respeito da horrível prática de “empalar” tenhamos em mente que nada tem a ver com “crucificar”.  Empalamento ou empalação (do latim palus, estaca ou mastro ) é uma método de tortura e execução que consistia na inserção de uma estaca pelo ânus, vagina, ou umbigo até a morte do torturado. 5 A vítima, atravessada pela estaca, era deixada para morrer sentindo dores terríveis, agravadas pela sensação de sede. Certa página no Brasil define a palavra staurós  como significando “empalação, enforcamento, estrangulamento”, além de “estaca”. Como podem tentar definir um substantivo empregando verbos? Detalhe, não citam fonte alguma para sua afirmação visto que não passa de baboseiras. Empalamento ou infixio é corretamente descrito na obra escrita por JUSTUS LIPSIUS. LIPSIUS, De Cruce, 18-19. A Encyclopedia Britannica define “crucificação” como sendo um “método de punição capital, particularmente entre os persas, selêucidas, cartaginianos e Romanos do 6º século a.C até o 4º século d.C…” O The Oxford English Dictionary acrescenta alguns detalhes em sua definição: “ação de crucificação, ou de entregar à morte numa cruz“. Este mesmo dicionário define “crucificar” como “entregar à morte por pregar ou amarrar a uma cruz“. Prof. em. Dr. Heinz-Wolfgang Kuhn A maioria dos léxicos definem crucificar como sendo “pregar ou amarrar alguém em uma cruz”. Isso sem falar em metáforas associadas, tais como “crucificar” alguém por criticá-lo duramente. O Teólogo Evangélico Heinz-Wolfgang Kuhn, (foto) que escreveu muito sobre a cruz, define crucificação como sendo “qualquer tipo de suspensão, consumada ou pretendida, numa estaca ou semelhante e em nossos dias em um poste com uma trave transversal…” e prossegue:

“…nos tempos do primitivo cristianismo provavelmente usava-se um travessão como em uma cruz comissa, em formato de T”. KUHN, “Die Kreuzesstrafe,” 679. 

Na opinião deste erudito evangélico, crucificar envolvia:

  • Uma suspensão
  • Uma execução completa ou pretendida
  • O instrumento de execução era um poste com ou sem barra transversal
  • Resultava numa prolongada morte agonizante

Chapman define crucificar como sendo “a suspensão numa execução de uma pessoa em um objeto em formato de cruz (permitindo-se uma certa flexibilidade no formato)“. CHAPMAN, Perceptions, 32.  Segundo a mais recente pesquisa feita por Gunnar Samuelsson, crucificação no tempo de Cristo era uma execução frequentemente onde “onde a vítima era pregada ou amarrada suspensa em um madeiro (viga ou poste) pelos membros, em uma ferramenta de execução vertical sem barra transversal Crucifixo na Antiguidade, pág. 29

O que diz a literatura Grega mais antiga a respeito da cruz?

Homero (928 a.C)

Avalie a maneira em que o autor do poema Ilíada empregou staurós. O objetivo desta pesquisa é avaliar o uso da terminologia usada por Homero que presumivelmente está relacionada com a punição de crucificação. Homero empregou diversas vezes em seu texto o substantivos staurós e palavras derivadas de σταυρ ou ainda σκολοπ. Homero escreveu em grego antigo Ilíada e Odisseia, além de escrever em grego arcaico datados como sendo do 8º século A.E.C ou mesmo anterior a este período. O texto contém uma forte influência Iônica e Eólica.  Homero também emprega amplamente σταυρός no plural no sentido de “postes” e jamais “cruzes”. Por exemplo, a cerca de defesa em torno da casa do filho de Peleu é descrita como σταυροί (estacas, postes). Em Ilíada, Livro 24§450 em grego  :

ἦ καὶ ἀναΐξας ἐριούνιος ἅρμα καὶ ἵππους καρπαλίμως μάστιγα καὶ ἡνία λάζετο χερσίν, ἐν δ᾽ ἔπνευσ᾽ ἵπποισι καὶ ἡμιόνοις μένος ἠΰ. ἀλλ᾽ ὅτε δὴ πύργους τε νεῶν καὶ τάφρον ἵκοντο, οἳ δὲ νέον περὶ δόρπα φυλακτῆρες πονέοντο, 445τοῖσι δ᾽ ἐφ᾽ ὕπνον ἔχευε διάκτορος ἀργεϊφόντης πᾶσιν, ἄφαρ δ᾽ ὤϊξε πύλας καὶ ἀπῶσεν ὀχῆας, ἐς δ᾽ ἄγαγε Πρίαμόν τε καὶ ἀγλαὰ δῶρ᾽ ἐπ᾽ ἀπήνης. ἀλλ᾽ ὅτε δὴ κλισίην Πηληϊάδεω ἀφίκοντο ὑψηλήν, τὴν Μυρμιδόνες ποίησαν ἄνακτι 450δοῦρ᾽ ἐλάτης κέρσαντες: ἀτὰρ καθύπερθεν ἔρεψαν λαχνήεντ᾽ ὄροφον λειμωνόθεν ἀμήσαντες: ἀμφὶ δέ οἱ μεγάλην αὐλὴν ποίησαν ἄνακτι σταυροῖσιν πυκινοῖσι

Tradução:

“Assim falou o ajudante, e saltando sobre o carro atrás dos cavalos rapidamente segurou  em suas mãos o chicote e as rédeas, e inspirou grande poder sobre os cavalos e mulas. Mas quando passaram pelas torres e a  trincheira que estavam antes  dos navios, enquanto os sentinelas estavam ocupados jantando, [445] sobre todos esses o servo matador de Argos lançou um sono profundo e em seguida ele retirou os parafusos e abriu os portões e levou Priamo para dentro com os tesouros que havia em sua carroça.  Mas, quando chegaram à cabana do filho de Peleu, a cabana sublime que os Myrmidons tinha edificado para seu rei, [450] que construíram com uma grossa touceira de palha de capim-que haviam ceifado dos prados, todos em volta dela fizeram um grande pátio, que foi cercado com estacas fixadas juntas”. Homero não usa os principais termos que são comumente relacionados com a punição por “crucificação”.

No texto que contém a mensagem de Íris para Aquiles, a respeito do desejo de Hector de maltratar o corpo de Patroklos lemos em Homero. 18.172-77:

οϊ δ’ αλλήλους όλέκουσιν | οΐ μέν αμυνόμενοι νέκυοςπέρι τεθνηώτος, | οΐ δε έρύσσασθαι ποτι “Ιλιον ήνεμόεσσαν | Τρώες έπιθύουσνμάλιστα δέ φαίδιμος Έκτωρ | έλκέμεναι μέμονεν κεφαλήν δέ έ θυμός άνωγε | πήξαιάνα σκολόπεσσι ταμόνθ’ απαλής άπό δειρής.

Tradução

Os homens estão matando uns aos outros, [os argivos] defendendo os corpos dos mortos, enquanto os trojanos correm ávidos para arrastá-los para Ilios dos ventos, mas ansioso está o glorioso Hector, o coração lhe ordena para cortar a cabeça do frágil pescoço e fixar sobre postes [πήξαι άνα σκολόπεσσι].”

Neste texto é fácil perceber que Homero escreve sobre algum tipo de poste ou vara sobre os quais cabeças eram fincadas. Nos textos de Homero σκόλοψ normalmente se refere a estacas usadas para construir trincheiras ou armadilhas. (Homero. 7.441; 8.343;9.350).

O Léxico Grego de Thayer (Thayer’s Greek Lexicon) define skolops da seguinte forma:

STRONGS NT 4647: σκόλοψ “σκόλοψ, σκολοπος, , de Homero em diante, um pedaço de madeira pontiaguda, uma vara , uma estaca Observe  especialmente 12.55 e 12.63 da Ilíada onde o autor descreve as estacas como tendo “pontas” (σκολόπεσσιν όξέσιν). Em Odisseia 7.45 Homero descreve “postes” no topo da muralha dos Fenícios usando a palavra σκόλοψ. Assim, nos textos Homéricos, σταυρός e σκόλοψ são usadas no sentido básico de “postes” ou “estacas pontiagudas”. Ao descrever a execução do perverso Lycurgus em sua Ilíada, o autor não menciona detalhes, contudo, Diodorus Siculus fala do mesmo acontecimento e emprega άνασταυροΰν, sendo o prefixo “aná” uma preposição em grego que indica um movimento para cima semelhante à palavra “up” em inglês. O que implica em um tipo de suspensão, que de acordo com o contexto geral e as palavras gregas empregadas por Homero, eram simples postes ou vigas onde corpos ou pessoas eram pendurados. A ausência dos termos άνασταυροΰν e άνασκολοπίζειν no textos da Era Arcaica não significam que tais procedimentos de “pendurar em estacas” ou “pendurar em vigas pontiagudas” não existiam. Isto se dá visto que temos aqui uma questão linguística, quando tais termos ainda não eram empregados e só vieram a ser comumente usados com a evolução do idioma no tempo do Grego Clássico. Alguns afirmam que a Cruz moderna não era empregada no tempo de homero. Com que base usam tal argumento? Na verdade, Homero já empregava o substantivo stauros da mesma forma que foi empregado em textos contemporâneos aos dias de Cristo e depois. Lemos também na Odisseia de Homero: “Ele fincou estacas (stauros) por todo este caminho e aquele, grandes estacas, foram colocadas juntas, as quais ele fez rachando um carvalho até o centro negroOdisseia 14.11 .

Homero emprega σταυρός e σκόλοψ no mesmo sentido de sempre. Em Odisseia, livro numero 22, Homero escreveu a respeito de um tipo de punição por suspensão na resposta de Odisseu para Eumaios sobre a punição dos pretendentes:

τον δ’ άπαμειβόμενος προσέφη πολύμητις Όδυσσεύς· | “ή τοι έγώ και Τηλέμαχος μνηστήρας άγαυούς | σχήσομεν εντοσθεν μεγάρων μάλα περ μεμαώτας* | σφώϊ δ’ άποστρέψαντε πόδας και χείρας ύπερθεν | [ές θάλαμον βαλέειν, σανίδας δ’ έκδήσαι οπισθε,] | σειρήν δέ πλεκτήν έξ αύτοΰ πειρήναντε | κίον’ άν’ ύψηλήν έρύσαι πελάσαι τε δοκοίσιν, | ώς κεν δηθά ζωός έών χαλέπ’ άλγεα πάσχη.”

Tradução:

Odysseus de muitos conselhos, respondendo lhe disse; “Eu e Telêmaco manteremos os nobres pretendentes dentro de [os] salões, quão ferozes sempre são eles; voltem vocês dois [curvem / amarrem Melantius ‘] pés e mãos acima (para jogar [ele] em [a] câmara, para amarrar tábuas [σανίδας] atrás [dele]), e ao ter amarrado uma corda torcida suspenda [ele] para o alto, para chegar perto [das] vigas do telhado, e ele ao ficar vivo por um longo tempo, que sofra dores excruciantes”. Hom. Od. 22.170-77.

τώ γ᾽ ὣς βουλεύσαντε διέτμαγεν. ἡ μὲν ἔπειτα 0ἐς Λακεδαίμονα δῖαν ἔβη μετὰ παῖδ᾽ Ὀδυσῆος. αὐτὰρ ὁ ἐκ λιμένος προσέβη τρηχεῖαν ἀταρπὸν χῶρον ἀν᾽ ὑλήεντα δι᾽ ἄκριας, ᾗ οἱ Ἀθήνη πέφραδε δῖον ὑφορβόν, ὅ οἱ βιότοιο μάλιστα κήδετο οἰκήων, οὓς κτήσατο δῖος Ὀδυσσεύς. 5 τὸν δ᾽ ἄρ᾽ ἐνὶ προδόμῳ εὗρ᾽ ἥμενον, ἔνθα οἱ αὐλὴ ὑψηλὴ δέδμητο, περισκέπτῳ ἐνὶ χώρῳ, καλή τε μεγάλη τε, περίδρομος: ἥν ῥα συβώτης αὐτὸς δείμαθ᾽ ὕεσσιν ἀποιχομένοιο ἄνακτος, νόσφιν δεσποίνης καὶ Λαέρταο γέροντος, 10 ῥυτοῖσιν λάεσσι καὶ ἐθρίγκωσεν ἀχέρδῳ: σταυροὺς δ᾽ ἐκτὸς ἔλασσε διαμπερὲς ἔνθα καὶ ἔνθα, πυκνοὺς καὶ θαμέας, τὸ μέλαν δρυὸς ἀμφικεάσσας: ἔντοσθεν δ᾽ αὐλῆς συφεοὺς δυοκαίδεκα ποίει πλησίον ἀλλήλων, εὐνὰς συσίν: ἐν δὲ ἑκάστῳ 15 πεντήκοντα σύες χαμαιευνάδες ἐρχατόωντο,

Tradução:

“[1] Mas Odisseus saiu do porto pelo caminho ruim ao longo da floresta e através dos  lugares altos até o lugar onde Atena lhe havia declarado que ele devia encontrar o formoso guardador de porcos, que cuidou de sua criação melhor que todos os escravos que o formoso Odisseus tinha conseguido. [5] Ele o encontrou  sentado na ante-sala de sua casa, onde seu pátio foi construído alto em um lugar de perspectiva ampla, uma pátio belo e amplo com um espaço aberto à sua volta. Este  o guardador de porcos havia  construído para os suínos de seu mestre, que tinha ido embora, sem o conhecimento de sua senhora e o velho Laertes. [10] Com grandes pedras  ele construiu, e definiu uma barreira de pereiras selvagens. Sem ele organizou estacas em todo o comprimento por este e aquele caminho, enormes estacas, situadas juntas, que ele fez por dividir um carvalho ao meio; 1 e dentro do pátio e fez doze chiqueiros perto uns dos outros, como camas para os porcos, e em cada um repousava guardados 50 porcos”.

Conclusão: Homero em momento algum fala de uma cruz no sentido moderno e o pouco que fala de “stauros” é sempre no plural e no sentido de “estacas”.

Dion Cássio;  em grego: Δίων ὁ Κάσσιος (circa 155–235 E.C)

Notável historiador que escreveu mais de 900 anos de história em 80 volumes. Em sua obra Historia Romana, escreveu muito sobre o período do Império Romano e muitos escritos  sobreviveram intactos ou como fragmentos até aos dias de hoje. Em seus escritos não observamos a tão mencionada cruz de que tantos falam. Antes, a palavra staurós está sempre associada a um poste onde eram suspensos ou amarrados os condenados, fossem eles inocentes ou criminosos. Falando sobre um tirano chamado Tarquinius (falecido em 495 a.C **) o Historiador Dion Cássio escreveu:

τὰ δὲ δὴ πλεῖστα καθ᾽ ἑαυτὸν ἢ καὶ μετὰ τῶν υἱέων, τοῦτο μὲν ὅπως μηδεὶς τῶν ἄλλωνμηδὲν δύναιτο, τοῦτο δὲ καὶ κατοκνῶν δημοσιεύειν ἐν οἷς ἐκακούργει, ἔπραττεν.δυσπρόσοδός τε καὶ δυσπροσήγορος ἦν, καὶ τῇ ὑπεροψίᾳ τῇ τε ὠμότητι τοσαύτῃ πρὸς πάνταςὁμοίως ἐχρῆτο ὥστε καὶ Ὑπερήφανος ἀπ᾽ αὐτῶν ἐπικληθῆναι. τά τε γὰρ ἄλλα καὶ αὐτὸς καὶοἱ παῖδες αὐτοῦ τυραννικώτερον ἔπραττον, καί ποτε τῶν 1 πολιτῶν τινας ἔν τε τῇ ἀγορᾷ καὶἐν τοῖς τοῦ δήμου ὄμμασι σταυροῖς τε γυμνοὺς προσέδησεν καὶ ῥάβδοις αἰκισάμενοςἀπέκτεινεν. καὶ τοῦθ᾽ ὑπ᾽ ἐκείνου τότε ἐξευρεθὲν καὶ πολλάκις ἐγένετο.” “A maioria dos negócios ele comandava sozinho ou com a ajuda de seus filhos, em parte, a fim de que ninguém pudesse ter qualquer poder e em parte para que ele limitasse a divulgação de seus próprios erros. Ele era de difícil acesso e difícil de abordar e mostrou tamanha arrogância e brutalidade para com todos do mesmo jeito, de forma que ele recebeu como resultado o apelido de O orgulhoso. Entre outras ações decididamente tirânicas de si mesmo e de seus filhos, certa vez amarrou alguns cidadãos nus em estacas no próprio Fórum e diante dos olhos dos cidadãos  os açoitou até a morte com barras. Essa punição, inventada por ele naquele momento, tem sido muitas vezes aplicada”.

Falando também de um tenente cruel chamado  Caio Flávio Fímbria  (104 a.C.)  o historiador  Dion relata:

ὅτι ὁ Φιμβρίας ἄνδρας πολλοὺς οὐ πρὸς τὸ δικαιότατον οὐδὲ πρὸς τὸ τῇῬώμῃ συμφορώτατον, ἀλλ᾽ ὀργῇ καὶ ἐπιθυμίᾳ φόνων 4 ἀπώλλυεν. τεκμήριον δέ, σταυρούς ποτε πολλούς, οἷς προσδέων αὐτοὺς καὶ αἰκιζόμενος διεχρῆτο, γενέσθαι προστάξας, ἔπειτ᾽ἐπειδὴ πολὺ πλείους τῶν θανατω θησομένων εὑρέθησαν ὄντες, ἐκέλευσεν ἐκ τῶν περιεστηκότων τινὰς συλληφθῆναι καὶ πρὸς τοὺς λοιποὺς προσδεθῆναι, ἵνα μὴ μάτην δόξωσι γεγονέναι.” “Fimbria destruiu muitos homens, não para servir aos melhores interesses da justiça, nem para garantir o maior benefício para Roma, mas de raiva e desejo de matança. Aqui está uma prova. Em uma ocasião ele tinha encomendado um grande número de estacas para serem preparadas, para ele então, prender os condenados e os açoitar até a morte; e quando estas demonstraram ser em número superior ao número de pessoas que estavam a ser condenadas à morte, ordenou que alguns dos espectadores fossem apanhados e amarrados às que sobravam para que não parecesse que foram preparadas em vão”.

No Livro 40 capítulo 3, o historiador falando das guerras de conquistas de Cesar no primeiro século a.C nos conta:

ἀνίσωσαν 1 τὴν μάχην. καὶ τότε μὲν κατὰ χώραν ἀμφότεροι ἔμειναν: αὖθις δὲ οἱ βάρβαροιτοῦ μὲν πεζοῦ κρείττους γενόμενοι, ὑπὸ δὲ τῆς ἵππου κακωθέντες, πρός τε τὸν Ταμέσα νἀνεχώρησαν, καὶ τὸν πόρον αὐτοῦ σταυροῖς, τοῖς μὲν ἐμφανέσι τοῖς δὲ καὶ ὑφύδροις,διαλαβόντες ηὐλίσαντο. [2] ἐπειδὴ δὲ 2 ἐκείνους τε ὁ Καῖσαρ τό τε σταύρωμα προσβολῇ βιαίᾳ ἐκλιπεῖν ἠνάγκασε καὶ μετὰ τοῦτο καὶ ἐκ τοῦ ἐρύματος προσεδρείᾳ ἐξήλασε.

“Por enquanto ambas as partes permaneceram onde estavam. Mais tarde, porém, os bárbaros, depois de provarem-se vitoriosos sobre a infantaria, mas ao serem derrotados pela cavalaria, retiraram-se para o rio Tâmisa, onde  acamparam depois de separar a passagem pelo Rio por meio de estacas, algumas visíveis e outras sob a água. 2 Mas Cesar por um ataque poderoso forçou-os a sair da paliçada e, mais tarde, pelo cerco dirigi-los de sua fortaleza…”

Neste relato observamos como a palavra grega staurós nada tem que ver com uma cruz. Portanto, se a Bíblia diz que  Jesus Cristo foi pendurado em um “staurós”, por que deveríamos abandonar o significado original da palavra conforme usada naquele tempo, e procurar em fontes pagãs uma explicação de fora da Bíblia? Dion Cássio no Livro 49§ 22 prossegue:

ἐκείνους μὲν οὖν Ἡρώδῃ τινὶ ὁ Ἀντώνιος ἄρχειν ἐπέτρεψε,τὸν δ᾽ [p. 388] Ἀντίγονον ἐμαστίγωσε σταυρῷ προσδήσας, ὃ μηδεὶς βασιλεὺς ἄλλος ὑπὸ τῶν Ῥωμαίων ἐπεπόνθει, καὶ μετὰ τοῦτο καὶ ἀπέσφαξεν. “Estas pessoas[ diz o historiador se referindo aos judeus] Antonio confiou a um certo Herodes para Governar; Mas Antigonus (37 a.C) ele prendeu a uma estaca e o açoitou, – uma punição que nenhum outro Rei havia sofrido às mãos dos Romanos, – e posteriormente o matou”.

No Livro 62b lemos :

κἀκ τούτου συνεγίνοντο ἅμα τῷ Νέρωνι Πυθαγόρας μὲν ὡς ἀνήρ,Σπόρος δὲ ὡς γυνή: πρὸς γὰρ τοῖς ἄλλοις καὶ κυρία καὶ βασιλὶς καὶ δέσποινα ὠνομάζετο. καὶτί τοῦτο θαυμάσειεν ἄν τις, ὁπότε καὶ μειράκια καὶ κόρας σταυροῖς γυμνὰς προσδέων θηρίουτέ τινος δορὰν ἀνελάμβανε καὶ προσπίπτων [3] σφίσιν ἠσέλγαινεν ὥσπερ τι ἐσθίων. τοιαῦταμὲν ὁ Νέρων ἠσχημόνει.

“Depois disso Nero tinha dois companheiros de cama ao mesmo tempo, Pitágoras para fazer o papel de marido para ele e Sporus o de uma esposa. O último em adição a outras maneiras de ser chamado era chamado “Dama”, “rainha” e “senhora”. Contudo, porque deveria alguém admirar-se disso, observando que Nero amarrava garotos e meninas nus a estacas e escondendo feras selvagens que as atacavam e satisfazia seus desejos brutais quando devoravam partes de seus corpos? Assim eram as indecências de Nero”

Conclusão: Uma visão geral da terminologia empregada pelo Historiador Dion Cássio não evidencia nem fala de uma “cruz” no sentido moderno, antes, apresenta um instrumento de execução em forma de simples estacas como sendo o mais provável. Visto que o grego permitia uma ampla gama de substantivos descritivos, é razoável concluir que caso o historiador desejasse falar de um objeto específico em formato de cruz, teria feito isso. No entanto, apesar dos melhores eruditos afirmarem que os escritores antigos da literatura grega foram “imprecisos” quanto ao formato dos objetos de execução, entendemos que a coisa não é bem assim, visto que associava-se staurós a uma estaca e os verbos dela derivados, empregam preposições que indicam movimento, ao se pendurar corpos, e não acoplamento de objetos de formatos diferentes. Posteriormente consideraremos diversos autores em latim, contudo neste artigo citaremos apenas um, cujos textos tem sido usado para “provar” que Cristo foi suspenso em um objeto em forma de cruz. Uma leitura preconcebida e apressada parece até indicar isso, mas não é o caso.

Titus Maccius Plautus (c. 254- 184 A.E.C)

Dramaturgo RomanoTito Maccio Plauto.jpg

Plautus escreveu em latim diversas peças e suas comédias estão entre as obras mais antigas em latim preservadas integralmente até os dias de hoje. Seus escritos são de grande valor visto que podem ecoar o correto entendimento das terminologias em nossa consideração além de escrever em latim, oferecendo uma visão filológica mais evidente. Plautus (ou Plauto) empregou frequentemente a palavra CRUX em seus escritos, (segundo Henkel umas 34 vezes)  bem como derivações como cruciatus ( tortura, tormento, execução) e cruciare (torturar).

Crux é encontrada em Amph. 1034 A; Asin. 548, 940; Aul. 59, 522, 631; Bacch. 584, 902; Capt. 469; Cas. 93, 416, 611, 641, 977; Cure. 611, 6$y, F. Carb. 2 (em combinação com patibulum); Men. 66, 328, 849, 915, 1017; Mil. 184, 310, 372; Most. 359, 743, 849-50, 1133; Per. 295, 352, 795, 856; Poen. 271, 347, 495, 496, 511, 789, 799, 1309; Pseud. 335,839, 846, 1182, 1249; Rud. 176, 518, 1070, 1162; Stich. 625; Τήη. 598
Patibulum pode ser visto em : Mil. 360 and F. Carb. 2. furca: Cas. 389, 438; Cist. 248; Men. 943; Per. 855.

Em alguns textos Plautus relaciona crux com algum tipo de punição por suspensão: Bacch. 902-03 relaciona crux com o Fórum (cf. também Men. 912-15; Poen. 789-95; Rud. 1162). Interessante a maneira como Plautus emprega a palavra furcifer (Pseud. 361) e patibulum (Most. 56) no mesmo sentido de cruciare. São muitos os textos onde Plautus emprega crux, patibulum e furca. O substantivo crux é um cognato enganoso para os que leem textos antigos em latim. A maioria dos leigos e até mesmo pessoas com nível acadêmico ao lerem textos em latim e se depararem com o substantivo crux,  imaginam que este se refere a um objeto cruciforme. Henkel, Kuhn e Gunnar Samuelsson fazem diversas citações dos escritos de Plautus e o estudo que fizeram contribuiu para o entendimento da significação original de crux. 6 Gunnar Samuelsson alerta porém, que nos estudos anteriores feitos por Henkel e Kuhn a maioria dos textos tido com “crucificações” principalmente por Henkel, “simplesmente contém o substantivo crux” (Crucifixo na Antiguidade, página 172). Os textos citados de Plautus não apresentam nenhuma definição além da noção de que crux era uma ferramenta usada para fazer algo mal durante uma punição. Em um dos escritos de Plautus, lemos que o escravo Trânio pergunta se alguém tomaria seu lugar ao ser torturado (excruciari) em troca de uma soma de dinheiro: “ ego dabo ei talentum, primus qui in crucem excucurrerit;  sed ea lege, ut offigantur bis pedes, bis bracchia” – Plaut. Most. 359-60.Darei um talento [àquele] que for o primeiro a seguir para a cruz [por mim] mas sob [uma] condição, que os pés e as mãos sejam amarrados (offigantur) em dobro“. Não parece evidente que crux neste texto se refere a um objeto de execução. Antes, é mais provável que fosse um objeto de tortura, apenas isso. Alguns tentam elucidar o que estes textos dizem sobre o instrumento chamado crux por recorrerem a tradicional história da crucificação de Cristo. É um erro infantil de investigação, onde idéias preconcebidas se insinuam na pesquisa, perdendo-se objetividade. Em outro texto, em O Guerreiro Fanfarrão, Sceledrus está de pé em frente da porta com braços abertos para impedir Filocomasium de entrar sem ser percebido. Ao ver isto Palestrios diz a Sceledrus:

Credo ego istoc extemplo tibi esse eundum actutum extra portam, Dispessis manibus patibulum quom habebis

“acho que nesta posição tu serás imediatamente levado para fora dos portões, com braços abertos carregando um patibulum” II. IV linhas 6,7    ou  –Plaut. Mil. 359-60

Este texto lido com objetividade e levando-se o contexto em consideração, sem se deixar levar pela interpretação posterior relacionada com o que supostamente ocorreu na via crúcis, revela simplesmente uma situação em que alguém poderia ser humilhado publicamente sob tortura, conforme sugeriu Palestrios na frase. Nada além disso. Fiquei muito surpreso ao ver como um certo site aqui no Brasil, copiando material de fontes americanas , cometeu o desfavor de adulterar este texto por inserir palavras que não existem no texto original. Isto se dá apesar de afirmarem de modo falso, que seu artigo  foi “revisado”. Verteram o texto em latim acima inserindo palavras que não existem, nem estão implícitas de forma alguma no texto de Plautus. Para benefício dos que levam este tipo de pesquisa a sério, estou destacando em vermelho a adulteração feita e repetida por muitos aqui no Brasil:

Eu suspeito que vocês estejam condenados a morrer do lado de fora do portão, naquela posição: mãos estendidas e presas no patibulum”

As letras vermelhas fazem parte de uma adulteração repetida na internet a partir da mesma fonte. O diálogo era da parte de Palestrus a Sceledrus. Como, então, se usa “vocês” no texto? Esta fraude é tão ridícula que mostra praticamente a opinião de quem verteu do latim e não a correta tradução do latim.  Não citarei aqui o site americano que promove este desserviço visto que Romanos 16:17 nos alerta para que “evitemos” este tipo de gente. Estes fraudadores de documentos antigos deviam estudar arquivologia e entender a seriedade que há num documento antigo para fins de referência. Falsificar documento é violação do artigo 197 do código penal. Isso não é de admirar, crentes criminosos está se tornando algo muito comum em nossos dias. Religiosos muitas vezes não só pesquisam com idéias preconcebidas inseridas em suas chamadas “pesquisas” como também adulteram textos antigos a bel prazer. Tudo para reforçar o quadro tradicional da crucificação. Ao considerarmos os verdadeiros escritos de Plautus de maneira ponderada, fica difícil sustentar a suposição comumente entendida de que haja uma distinção entre a crux simples como sendo o poste aguardando o patibulum que supõe-se ser a trave transversal. A forma como era empregado o patibulum ocorre dissociada de um stauros. Este fato não pode ser ignorado ao se ler as seguintes palavras de Plautus:

 “Patibulum ferat per urbem, deinde affigatur cruci

“deixe-o carregar seu patibulum pela cidade e deixe-o então ser preso à uma cruz” Carbonaria  

Alguns relacionam a tortura e posterior uso da cruz  com o relato  tradicional de Jesus  quando conduzido até a sua execução na “cruz”. O contexto geral e o uso de tais expressões por Plautus, não indicam esta dinâmica. Ao contrário, pelo que sempre tem escrito, Plautus estava falando de duas torturas. O patibulum sendo parte do sofrimento e uma ferramenta de suplício adicional antes da execução. Em todos os outros  textos que Plautus fala do patibulum, observamos que este é independente de um desfecho em que alguém é pregado em uma cruz. Plautus não diz em nenhum lugar que o patibulum é “preso à cruz”. Esta ideia é atualmente indevidamente inferida no texto. Carregar um patibulum pode muito bem se referir a uma punição separada, similar às punições na furca. O ato de carregar uma furca é mencionada em dois relatos por Plautus: Cas. 389 (o verbo ferre pode ser compreendido tanto no sentido de “carregar” e figurativamente “suportar”) ; em inglês aqui. Cist. 248 (uma inserção no texto em latim de diversos fragmentos, não presentes na Tradução de Riley) Há um outro relato de Plautus que tem sido usado indevidamente para se tentar provar que Cristo foi levado carregando uma “furca” ou “patibulum” e que em seguida foi preso à cruz tradicional. Contudo, além de ter sido manipulado na hora de se traduzir, este texto após exame cuidadoso, não apresenta prova alguma do que muitos imaginam em suas pesquisas. Lemos as seguintes palavras de Plautus:

Frateor, manus vobis do. Et post dabis sub furcis. Abi intro–in crucem”.

” Eu o admito, eu levanto minhas mãos. E depois vocês as prenderão na furca. Prosseguindo para a crux”   Este texto é um diálogo entre várias pessoas e está dividido em partes, sendo que cada um fala uma parte. Quando Dordalus diz “…levanto minhas mãos” ele estava se referindo a se render da mesma forma que um gladiador se rendia no anfiteatro e empregou a mesma expressão “manus dare” não se refere a algo para ser entendido literalmente. Esta expressão é usada neste sentido em textos em latim. Alguns versos antes ele  diz que alguém lhe dera “um tapa no rosto”, obviamente não literal, mas neste caso metafórico. Ademais, Dordalus fala a respeito de si mesmo, ao passo que a cláusula seguinte se refere a muitos e não a ele mesmo. Além de ser uma expressão falada por outro narrador, cujo nome é Toxilus. *** Toxilus fala de pessoas terem as mãos “presas na furca” e de serem depois levadas “para a perdição” ou como outros traduziram do latim “para a cruz”.

Infelizmente alguns pretensos “apologistas” estão vandalizando os escritos de Plauto para parecerem apoiar o conceito da Cruz tradicional. Como pode ver no artigo acima, adicionaram palavras e ideias ao texto em latim. Me refiro a Plaut. Mil. 359-60:

“Credo ego istoc extemplo tibi esse eundum actutum extra portam, Dispessis manibus patibulum quom habebis”.

Esta passagem já foi considerada em detalhes no artigo acima. Ademais, manipularam outra passagem, que posso abordar aqui em detalhes. Na seguinte frase de Plauto:

“Frateor, manus vobis do. Et post dabis sub furcis. Abi intro–in crucem

Esta, traduzida e manipulada sutilmente é vertida assim:

“Eu o admito, eu levanto minhas mãos. E depois vocês as prenderão na furca. Prosseguindo para a crux”

Na verdade, este texto é um diálogo entre Sagaristio, Toxilus e Dordalus. Deve ser vertido da seguinte forma:

Dordalus

Você ainda está se comportando de modo estúpido, você pedaço de garoto?

Lemniselene

Meu patrão, faça, há um querido, entre até o jantar…(Até Dordalus)

Dordalus

Minha preguiçosa estupidez, estais agora zombando de mim?

Lemniselene

O que, porque lhe convidei para se divertir?

Dordalus

Não quero me divertir.

Lemniselene

Eles não querem.

Toxilus

O que, então? Os 600 didracmas,como estão? Que perturbação causam eles?

Dordalus

Para mim basta! Eles sabem muito bem como retornar um cumprimento a um inimigo.

Toxilus

Não nos satisfizemos suficientemente?

Dordalus

Confesso; Ergo minhas mãos* a ti.
[*Gladiadores usavam a frase MANUS DARE ou “ergo minhas mãos” reconhecendo derrota numa luta no anfiteatro.]

Toxilus

E logo, os terá presos sob a furca… E os conduzirá

Sagaristio

Para a  perdição! [ou uma tradução alternativa: Para cruz!]

Como podemos ver,se removermos os nomes dos participantes do diálogo bem como a estrutura de parágrafos, teremos uma frase única com sentido diferente. Além disso, verter CRUCEM por cruz com sentido substantivado muda muito o entendimento do texto.

Normalmente a furca era um objeto em forma de forquilha onde as mãos dos condenados eram presas e ali eram torturados. Este diálogo escrito por Plautus, apresentando na passagem em destaque,uma conversa entre 3 pessoas, é traduzido para outros idiomas como se fosse uma só pessoa falando esquartejando desta forma a sequência natural do texto. Foi propositalmente  adulterado por muitos em sua tradução a fim de promover uma ligação com o relato da via crucis nos evangelhos.furca

Ainda mais inconsistente com a afirmação de que há um paralelo nos escritos de Plautus com o relato da execução de Cristo é um exame dos termos “furca” e “patibulum” definidos em léxicos dedicados ao assunto.
furca, ae f. [Sanscr. bhur-ig. tesoura; cf. Lat. forceps, forfex; também Gr.phuros, relhas de arar ; Lat. forare; Inglês. bore, Curt. Gr. .Etym. p.299; porem cruz. refere-se furca a raiz : dhar-, – fero, como uma preposição. apoio; v. Ausspr. 1. 149], um garfo de duas pontas. I. Lit. exacuunt alii vallos furcasque bicornes, Verg. . G. 1. 264: valentes, id. ib. 2, 359: furcis detrudi. Liv. 28, ;3, 7; cf. Caes. B. C. 2. 11. 2. -Prov.: naturam expellas furca. tamenusque recurret. com poder e . Hor. Ep:. 1. 10. 24. (v. furcilla).- II. Transf, de coisas com um formato semelhante ao de um  garfo. A. Um instrumento com forma de garfo, viga ou estaca, para carregar cargas detrás nos ombros. Plaut. Cas. 2, 8, 2: para apoiar o assento de um teatro, Liv. 1, 35, 9; para uma rama. Plin. 14.2, § 32; para redes de pesca, id. 9, 8. 9, § 31; da forquilha do telhado em uma casa, Ov. M. 8. 700; uma armação sob a qual se suspendia carne na chaminé , id. ib. 8. 648 – B. Um instrumento de punição em formato de forquilha (V or †),que era colocado no pescoço do condenado, enquanto suas mãos era presas a nos extremos, um jugo (cf. crux , gabalus, patibulum; portanto, furcifer): Para. Satis sumpsimus jam supplici.Do. Fateer. manus vobis do. Para. Post dabis sub furcis, Plaut. Pers. 5, 2, 71: canem et furcam ferre. id. Cas. 2, 6, 37: servus per circum, cum virgis caederetur, furcam ferens ductus est. Cic. Div. 1, 26, 55 : servus sub furca caesus, Liv. 2, 36, 1. Drak.; Val. Max. 1. 7. 4: Lact. 2, 7, 20): sub furca vinctus, inter verbera et cruciatus, Liv 1. 26. 10 : cervicem inserere furcae. Suet. Ner. 49; Eutr. 7, 5; Prud. streph. 10, 851 – Portanto poet. para designar a pior condição de escravidão: ibis sub furcam prudens. Hor. S. 2. 7. 66. – C. Uma forca em forma de furquilha : aliquem furca ligere. Dig. 48. 19. 28 fin.: furcae subicere, ib. 9: in furcam tollere, ib 38: in furcam suspendere, ib. 13. 6: in furcam damnare. ib. 49, 16, 3 : canes vivi in furca, sambucca arbore fixi , Plin. 29. 4. 14, § 57. – D. Um jugo em forma de forquilha colocado sobre bovinos a fim de domá-los, Varr.R. R. I, 20. 20. – E. Furcae cancrorum, as garras de um caranguejo. App. Mag. p. 297. – F.Furcae Caudinae, caminho estreito de Caudium, the Caudine Forks,frequentemente chamada de  Furculae Caudinae (v. furcula, II. e Caudium), Val. Max. 5, 1, 5 ext.; 7, 2, 17 ext. ” (Lewis, C.T. & Short, C.S., 1890, “A Latin Dictionary,” Clarendon Press: Oxford, p.795.Enfase original).
patibulatus, a um, adj.[patibulum], preso no patibulum: sob jugo, colocado no gibbet, Plaut. Most. 1; 1. 53: patibulatus ferar per urbem, deinde .affigar cruci, id. Fragm. ap. Non. 221. 13 (al. patibulum) : exitiabili nexu patibulatum relinquens, colocado no gibbet, App. M. 4, p. 147, 4 (al. patibulum).
patibulum, i, n. (masc collat. form patibulus, i, Varr. ap. Non. 221.12: v. no seguinte.) [pateo], um jugo em forma de forquilha, colocado no pescoço de criminosos, e sob o qual suas mãos eram amarradas; também, um gibbet em forma de forquilha (syn. furca). I. Lit.: dispessis manibus patibulum quom habebis, Plaut. Mil. 2, 4, 7: patibulo eminens adfigelatur, Sall. Pragm. ap. Non. 4. 355 (Hist. 4, 40 Dietsch): caedes, patibula, ignes, cruces, Tac. A. 14, 33; Cic. Verr. 2, 4. 41, § 90.-:Masc.: deligat ad patibulos. Varr. ap. Nou. 221. 12: suspende eos contra solem in patibulis, Vulg. Num. 25, 4.- II. uma forquilha para rama de plantas, Plin. 17, 23, 35, § 212; Cato, R. R. 26. – B. uma barra de madeira pra prender uma porta, Titin, ap. Non. 366, 16.

Não perca a continuação do artigo na parte 2 onde serão considerados diversos autores em latim e Grego. Flávio Josefo, Cornélio Tácito, Plutarco, Quintus Rufus, Sêneca e outros. Após avaliar alguns autores antigos, podemos dar a seguinte  definição sobre o sentido da palavra cruz e crucificação:

Crucificação era na realidade uma execução fosse ela completada ou não, onde a vítima era pregada ou amarrada suspensa em um madeiro (viga ou poste) pelos membros, em uma ferramenta de execução vertical sem barra transversal, realizada num ato público a fim de sofrer uma morte demorada e agonizante.   

NOTAS:

1. Roman Antiquities, VII, 69:1-2

2. Guerras Judaicas, Flavio Josefo

3. Apiano ca 95-ca. 165

4.  O livro The Non-Christian Cross (A Cruz Não-Cristã), de J. D. Parsons (Londres, 1896), acrescenta: “Não existe uma única sentença, em quaisquer dos numerosos escritos que compõem o Novo Testamento, que, no grego original, forneça até mesmo evidência indireta no sentido de que o stauros usado no caso de Jesus não fosse um stauros comum; muito menos no sentido de que consistia, não de uma única peça de madeira, mas de duas peças pregadas juntas na forma de cruz. . . . Não é pouco desencaminhador da parte de nossos instrutores traduzir a palavra stauros por ‘cruz’ ao verter os documentos gregos da Igreja para a nossa língua nativa, e apoiar essa sua ação por colocar ‘cruz’ em nossos léxicos como o significado de stauros sem explicar bem que isso de forma alguma era o sentido primário da palavra nos dias dos Apóstolos, que não se tornou seu significado primário senão muito tempo depois, e assim se tornou, então, se é que se tornou, apenas porque, apesar da falta de evidência corroborativa, foi por uma razão ou outra presumido que o stauros específico no qual Jesus foi executado tinha tal formato específico.” — Pp. 23, 24; veja também The Companion Bible (A Bíblia Companheira), 1974, Apêndice N.° 162.

5. Métodos de Tortura na Inquisição

6. Hengel: Asin. 548ff (52 n. 3); Bacch. 362 (52); Capt. 469 (7 n. 13); Cas. 611 (7 η.13); F. Carb. 2 (62); Men. 66 (7 η. 13), 849 (γ η. 13); Mil. $j2Î (52); Most. 359ff (52 n. 3), 1133 (52 n. 3); Per. 352 (7 n. 13), 855 (52 n. 3 [crux occurs on line 856]); Poen. 347 (7 n. 13); Rud. 518 (7 n. 13); Stich. 6z${{ (52-53 n. 3); Trin. 598 (7 n. 13). Hengel interpreta as frequentes referências de  Plautus a mala cruxcomo se referindo à “terrível cruz” (HENGEL, Crucifixion, 7 + n. 13) e alega ver várias cruzes no texto (HENGEL, Crucifixion, 52 + n).    

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