Romanos 9:5 Mal traduzido na maioria das versões da Bíblia promove confusão!


“Deus bendito eternamente” – Quem? (Romanos 9:5)

FONTE: O APOLOGISTADAVERDADE

καὶ ἐξ ὧν          ὁ Χριστὸς    τὸ κατὰ σάρκα,

kai  ex hon      ho khri·stós   to ka· sár·ka,

e    de quem    o   Cristo      segundo a carne,

ὁ ὢν     ἐπὶ πάντων,              θεὸς    εὐλογητὸς      εἰς  τοὺς αἰῶνας,    ἀμήν. 

ho òn   e· pán·ton,            The·òs  eu·lo·ge·tòs   eis  toùs   ai·ó·nas;  a·mén

aquele que é sobre todos,   Deus    bendito          para sempre.           Amém.

1934    “e dos quais, por descendência física, veio o Cristo. Deus, que é sobre todos, seja bendito por todas as eras! Amém.” – The Riverside New Testament, Boston e Nova Iorque.

1952 “e da sua raça, segundo a carne, é o Cristo. Deus, que é sobre todos, seja bendito para sempre. Amém.” – Revised Standard Version, Nova Iorque.

1961 “e deles, na descendência natural, procedeu o Messias. Que Deus, o supremo sobre todos, seja bendito para sempre! Amém.” – The New English Bible, Oxford e Cambridge, Inglaterra.

1963    “e de quem procedeu Cristo segundo a carne: Deus, que é sobre todos, seja bendito para sempre. Amém.” – Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs, Brooklyn, Nova Iorque.

1966    “e Cristo, como ser humano, pertence à sua raça. Que Deus, que governa sobre todos, seja louvado para sempre! Amém.” – Today’s EnglishVersion, American Bible Society, Nova Iorque.

1970    “e deles veio o Messias (falo de suas origens humanas). Bendito para sempre seja Deus, que é sobre todos! Amém.” – The New American Bible,Nova Iorque e Londres.

1982    “e deles é o Cristo segundo a carne. O Deus que está acima de tudo seja bendito pelos séculos! Amém.” – Bíblia Sagrada, Editora Vozes Ltda., Petrópolis, RJ.[1]

NTVABV BLH usam fraseologia similar à das traduções acima.

Contudo, outras traduções vertem o texto em questão de modo a fazer o leitor concluir que o “Deus bendito para sempre” é o Senhor Jesus Cristo. Por exemplo, a versão Almeida Revista e Corrigida traduz esse texto assim: “Dos quais são os pais, e dos quais é Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém!” Tais tradutores querem com isso encontrar apoio para poder afirmar a divindade de Jesus e a igualdade dele com seu Pai, o Soberano Senhor Jeová. Mas, vale ressaltar que essas duas características – divindade e igualdade – são atributos inteiramente diferentes e não forçosamente conciliáveis entre si. A palavra “divindade” é definida como “qualidade de divino”. (Michaelis) De fato, a Bíblia atesta a divindade de Cristo, atribuindo a ele o título Theós (Deus ou deus). (Is 9:6; Jo 1:1, 18) Em razão disso, as Testemunhas de Jeová reconhecem e aceitam abertamente a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo.[2] No entanto, a divindade de Cristo não pressupõe a igualdade dele com seu Pai, Jeová.

Por exemplo, na Bíblia os anjos são chamados de ’elo·hím (Deus ou deuses) no Salmo 8:5 (veja a nota na versão Almeida Corrigida), pelo fato de serem “filhos de Deus” (Jó 1:6; 2:1, Al; hebraico: benéh ha·’Elo·hím) OLexicon in Veteris Testamenti Libros (Léxico dos Livros do Velho Testamento), de Koehler e Baumgartner (1958, p. 134), diz: “seres divinos, deuses (individuais)”. (Apud obra Estudo Perspicaz das Escrituras, vol. 1, pp. 689-690, publicada pelas Testemunhas de Jeová.) Assim, biblicamente os anjos são seres divinos; possuem divindade. Mas, evidentemente, isso não os torna iguais a seu Pai Jeová em poder, autoridade e eternidade. Assim como o fato de um homem possuir humanidade por ser filho de outro homem não significa que esse filho seja igual ao seu pai humano em poder, autoridade e tempo de existência, do mesmo modo o fato de Jesus Cristo ser Filho de Deus – sendo, por isso, divino – não o torna igual a seu Pai celestial em poder, autoridade e eternidade.[3]

Mas, como Romanos 9:5 deve ser traduzido? De modo a identificar o Senhor Jesus Cristo com o “Deus bendito eternamente”, ou de forma a mostrar que o “Deus bendito eternamente” e Jesus Cristo são seres distintos? Isso é relevante doutrinalmente, ou é apenas uma questão de tradução? As evidências apontam inequivocamente como tradução correta a que distingue Jesus Cristo do “Deus bendito eternamente”. Serão apresentadas abaixo as razões para tal conclusão.

Há base bíblica e gramatical para que ὁ ὢν (ho òn, “aquele que é” [“o qual”, Al]) seja o começo duma nova sentença, ou cláusula independente, referindo-se a Deus e proferindo uma bênção sobre ele pelas provisões que fez.

1) O contexto mostra que o assunto que vinha sendo discorrido por Paulo finaliza com a expressão “o Cristo segundo a carne”.

Nos versículos 1-3 Paulo expressa seu pesar pelo fato de os judeus como um todo terem rejeitado a Cristo. Daí, no versículo 4, ele enumera os privilégios que lhes foram estendidos – “a adoção como filhos, e a glória, e os pactos, e a promulgação da Lei, e o serviço sagrado, e as promessas”, e o fato de terem antepassados ilustres, tementes a Deus – patriarcas como Abraão, Isaque e Jacó. Daí o versículo 5, na primeira parte, finaliza a descrição de tais privilégios com o maior privilégio que os judeus tiveram – Cristo ter sido um deles “segundo a carne” (segundo a linhagem humana).  Em vista de tais provisões feitas por Deus aos judeus, Paulo inicia uma nova frase, proferindo uma bênção sobre Deus. De modo que a primeira sentença do versículo 5 – “de quem procedeu Cristo segundo a carne” – é gramaticalmente completa em si mesma, tem um tom terminante,  e faz parte de um tema que vinha sendo considerado desde o versículo 1, mas não tem conexão alguma com a frase seguinte.[4] Assim, a frase seguinte deve corretamente rezar: “Deus, que é sobre todos, seja bendito para sempre. Amém.” – NM.

2) Encontramos um ponto após σάρκα [sár·ka; “carne”] em todos os mais antigos manuscritos que atestam neste caso, — a saber, os unciais[5] A (Códice Alexandrino, grego, quinto século), B (Ms. Vaticano 1209, gr., quarto séc. EC), C (Códice Ephraemi rescriptus, gr., quinto séc. EC), e em pelo menos 26 mss. cursivos, que também têm em geral um ponto depois deαἰῶνας [ai·ó·nas] ou ἀμήν [a·mén]. Isso é uma indicação adicional de que o que vinha sendo considerado nos versículos anteriores de Romanos, capítulo 9, termina na palavra “carne”. A sentença seguinte, pois, é uma expressão de louvor a “Deus, que é sobre todos”, e não diz respeito a Cristo.

3) Em Romanos 9:5, ὁ ὢν (ho òn, “aquele que é”)  não se refere a Cristo, pois é separado de ὁ Χριστὸς (ho khri·stòs; “o Cristo”) por τὸ κατὰ σάρκα (ka· sár·ka, “segundo a carne”). Devido a isso, a leitura precisa ser seguida por uma pausa, — uma pausa que se prolonga pela ênfase especial dada aκατὰ σάρκα (ka· sár·ka) pelo το (to).[6] Observe isso na transcrição abaixo do texto grego dessa parte de Romanos 9:5:

ὁ Χριστὸς     τὸ κατὰ σάρκα.    ὁ ὢν

ho khri·stós   to ka· sár·ka.      Ho òn 

o   Cristo      segundo a carne.  Aquele que é

4) A expressão ὁ ὢν ἐπὶ πάντων (ho òn e· pán·ton, “aquele que é sobre todos”) só pode ser aplicada, em sentido absoluto, a Jeová, o Deus Todo-Poderoso. Efésios 4:6 declara que há “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos [ὁ ἐπὶ πάντων; ho epì pánton], e por intermédio de todos, e em todos”. Em sentido absoluto, o único que não tem um cabeça sobre si é Jeová. – 1Co 11:3; 15:28.

5) A expressão εὐλογητὸς εἰς τοὺς αἰῶνας (eu·lo·ge·tòs eis  toùs   ai·ó·nas, “bendito para sempre”) é aplicada na carta aos Romanos ao Deus Todo-Poderoso, distinto de Cristo. Em Romanos 1:7 e 8,  Paulo usa expressões distintivas, tais como “da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”; “agradeço a meu Deuspor intermédio de Jesus Cristo”, indicando que o Deus a quem Paulo adorava não era Jesus Cristo; e no versículo 25 Paulo descreve tal “Deus” como sendo ‘Aquele que criou, que é bendito para sempre’ (“que é bendito eternamente”, Als; ACRF) e finaliza com  “Amém”. (τὸν κτίσαντα, ὅς ἐστιν εὐλογητὸς εἰς τοὺς αἰῶνας: ἀμήν; tòn ktísanta, hós estin eulogetòs eis toùs aiónas. Amén). Observe que a mesma expressão (“bendito para sempre”) é aplicada por Paulo ao Deus que é distinto do Filho, Jesus Cristo.

Também, 2 Coríntios 11:31 fala do “Deus e Pai do Senhor Jesus” como sendo “Aquele que há de ser louvado para sempre” (ὁ ὢν εὐλογητὸς εἰς τοὺς αἰῶνας; ho òn eulogetòs eis toùs aiónas; “que é eternamente bendito”, Als; “que é bendito para sempre”, BLH.) Por conseguinte, o contexto da Bíblia como um todo é determinante em apontar para Jeová, o Pai, como sendo o θεὸς εὐλογητὸς εἰς τοὺς αἰῶνας (The·òs eu·lo·ge·tòs eis  toùs   ai·ó·nas; “Deus bendito  para sempre”).

6) A inserção do verbo “seja” é coerente com a tradução do grego antigo.

O predicativo εὐλογητός (eu·lo·ge·tós, “bendito”) ocorre depois do sujeito θεός (The·ós, “Deus”). O mesmo ocorre no Salmo 68:19 (Sal 67:19,LXX) Sobre a expressão “Bendito seja Jeová” (Hebr.: ba·rúkh ’Adho·naí), que inicia esse salmo, a versão LXXBagster verte assim: Ký·ri·os ho The·óseu·lo·ge·tós, eu·lo·ge·tós Ký·ri·os; “Jeová Deus [seja] bendito, bendito [seja] Jeová”. (Este é um dos 134 lugares em que os soferins, ou escribas, judaicos alteraram o texto hebraico original de YHWH [transliteração das consoantes do nome divino] para ’Adho·naí, conforme Gins.Mas [7]) As traduções costumam inserir  o verbo “seja” para dar sentido ao texto. De fato, o grego antigo usa uma linguagem elíptica, tornando necessário inserir palavras na tradução para outras línguas para dar o sentido ao texto. Como exemplo, temos a inserção, em Romanos 9:5, do verbo “procedeu” (“descende”, ALA, IBB“é”, grifado para indicar inserção, na Al).

7) Há base para colocar θεός (The·ós, “Deus”) antes de ὁ ὢν ἐπὶ πάντων (ho òn e·pì pán·ton; “aquele que é sobre todos”).

G. B. Winer, na sua obra A Grammar of the Idiom of the New Testament(Gramática do Idioma do Novo Testamento; 7.º edição, Andover, EUA, 1897, p. 551), diz que “quando o sujeito constitui a noção principal, especialmente quando é antitético para com outro sujeito, o predicado pode e deve ser colocado depois dele, cf. [Sal 67:19 LXX]. E assim, em Rom. ix. 5, se as palavras ὁ ὢν ἐπὶ πάντων θεὸς εὐλογητὸς  etc. [ho òn e· pán·ton The·òseu·lo·ge·tòs etc.] se referem a Deus, a posição das palavras é bem apropriada e até mesmo indispensável.”[8]

A Catholic Dictionary admite: “Não existe razão alguma, na gramática ou no contexto, que nos proíba de traduzir: ‘Deus, que está acima de tudo, seja abençoado para sempre’. Amém.”[9]

8) Mesmo que Cristo fosse o “Deus” mencionado em Romanos 9:5, ainda assim, “Cristo não seria absolutamente igualado a Deus, mas apenas descrito como um ser de natureza divina, pois a palavra theós [Deus] está sem artigo. . . . A explicação muito mais provável é que essa declaração é uma doxologia dirigida a Deus.” – The New International Dictionary of the New TestamentTheology  (O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento), Grand Rapids, Mich., EUA; 1976, traduzido do alemão (Vol. 2, p. 80), apud livro Raciocínios à Base das Escrituras (p. 411, § 2), publicado pelas Testemunhas de Jeová.

Assim, temos um conjunto repleto de evidências:

1)  O contexto. – Ro 9:1-5.

2)  O ponto após σάρκα: [sár·ka; “carne”] em todos os mais antigos mss. unciais (A, B, C) e em pelo menos 26 mss. cursivos.

3)  A separação de ὁ Χριστὸς (ho khri·stós; “o Cristo”) de ὁ ὢν  (ho òn, “aquele que é”) por τὸ κατὰ σάρκα [tò katà sárka; “segundo a carne”], mostrando que “aquele que é” não se refere a Cristo.

4)  O fato de apenas Jeová, o Deus Todo-Poderoso, poder serὁ ὢν ἐπὶ πάντων (ho òn e· pán·ton, “aquele que é sobre todos”). – Ef 4:6; 1Co 11:3; 15:28.

5)  O fato de Jeová ser identificado como o  εὐλογητὸς εἰς τοὺς αἰῶνας(eu·lo·ge·tòs eis  toùs   ai·ó·nas, “bendito para sempre”). – Ro 1:7, 8, 25.

6)  A inserção do verbo “seja” é coerente com a tradução do grego antigo. – Sal 68:19; Ro 9:5.

7)  A colocação de θεός (The·ós, “Deus”) antes de ὁ ὢν ἐπὶ πάντων (ho òn e·pì pán·ton, “aquele que é sobre todos”) também é gramaticalmente correta.

8)  O “Deus” mencionado em Romanos 9:5 está sem o artigo, impedindo até mesmo traduções trinitaristas de identificar Jesus com o Deus Todo-Poderoso.

 Tudo isso constitui prova cumulativa irrefutável de que Romanos 9:5 não apoia a Trindade. Portanto, Romanos 9:5 atribui louvor e agradecimento a Deus. Este texto não identifica Jeová Deus com Jesus Cristo.

Explicação das siglas das traduções usadas:

ABV – A Bíblia Viva

Al – Almeida Revista e Corrigida

ALA – Almeida Revista e Atualizada no Brasil

Als – Almeida Revista e Corrigida, Almeida Atualizada e Almeida da Imprensa Bíblica do Brasil

BLH – Bíblia na Linguagem de Hoje

IBB – Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira

LXX – Versão dos Setenta (Septuaginta)

LXXBagster – Septuaginta (com uma tradução em inglês do Sir Lancelot Brenton, S. Bagster & Sons, Londres, 1851).

NM – Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs

NTV – Novo Testamento Vivo

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com


[1] A citação dessas sete traduções foi extraída do Apêndice da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, revisão de 1986, pp. 1520-1521, publicada pelas Testemunhas de Jeová.
[2] A revista Despertai! de 8 de fevereiro de 1985 (p. 20), afirma: “As Testemunhas de Jeová não negam a deidade, ou divindade, de Cristo. Mas não partilham o entendimento filosófico dos trinitaristas quanto a tais termos. Ao se referirem à ‘divindade de Jesus’, os trinitaristas não querem dizer que ele seja ‘um deus’, ou ‘semelhante a Deus’, mas que ele é ‘Deus’, uma das três pessoas coeternas da ‘Divindade’.”

[3] Veja o artigo “A Palavra era ‘um deus’ ou ‘divina’?”, neste blog, no linkhttp://oapologistadaverdade.blogspot.com.br/2011/10/apalavra-era-um-deus-ou-divina-para-que.html, e o artigo “’Meu Senhor e meu Deus!’ – em que sentido?”, também neste blog, no linkhttp://oapologistadaverdade.blogspot.com.br/2012/06/meu-senhor-e-meu-deus-em-que-sentido.html.

[4] Veja a obra The Authorship of the Fourth Gospel and Other Critical Essays (A Autoria do Quarto Evangelho e Outros Ensaios Críticos, de Ezra Abbot, Boston, 1888, pp. 332-438, especialmente as pp. 345, 346 e 432 apud Apêndice da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas], p. 1521.).
[5] Uncial: “Designativo da escrita que se originou do arredondamento das letras maiúsculas romanas e era usada principalmente em manuscritos gregos e latinos dos séculos IV a VIII.” – Michaelis.
[6] Veja a obra The Authorship of the Fourth Gospel and Other Critical Essays (A Autoria do Quarto Evangelho e Outros Ensaios Críticos, de Ezra Abbot, Boston, 1888, pp. 345, 346 e 432. apud ib. nota de rodapé 4.)
[7] The Massorah, de C. D. Ginsburg, Ktav Publishing House, Nova Iorque, reimpressão de 1975, apud Apêndice da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, p. 1502.
[8] Apud ib. p. 1521.
[9] Apud revista Despertai!  de 22 de janeiro de 1985 (p. 13), periódico publicado pelas Testemunhas de Jeová.

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