A Palavra era “um deus” ou “divina”?



Para que o leitor entenda melhor este artigo, recomenda-se que primeiro assista ao vídeo   “João 1:1 e as Testemunhas de Jeová”, acessando o canal http://www.youtube.com/user/oapologistadaverdade 


    Quando a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs foi produzida, diversos teólogos a criticaram afirmando que a tradução indefinida em João 1:1c era uma violação da regra de Colwell. Eles ingenuamente concluíram que um PNAPV[1] era automaticamente definido. Assim, achavam que o artigo definido estava subentendido em João 1:1c.
     Na sua acirrada posição contra a Tradução do Novo Mundo, tais críticos desperceberam que um PNAPV definido em João 1:1c colocaria a cláusula anterior do texto em contradição. Ou seja, uma vez que a Palavra “estava com” o Deus, ela não poderia ser “o Deus”. Ademais, isso conflitaria com o próprio ensino trinitário, pois faria o Pai ser o próprio Filho.[2]
      Mas, como para os trinitários uma tradução indefinida do texto está fora de cogitação, devido a suas convicções, eles procuram atribuir um sentido qualitativo a ele. Neste artigo, serão examinadas as seguintes questões: É incorreta uma versão indefinida de João 1:1c? O sentido qualitativo nessa cláusula faria o Filho ser coigual ao Pai?
     Para melhor entendimento do leitor, vamos esclarecer aqui os sentidos que têm sido atribuídos a um substantivo anartro.
1)      Definido: quando identifica a pessoa ou coisa, distinguindo-a de outra. Tem aspecto de exclusividade dentro do referido contexto. O artigo definido “o” está subentendido.

2)      Indefinido: quando denota um indivíduo entre outros numa espécie ou categoria. Pode-se acrescentar o artigo indefinido “um” ao substantivo sem alterar seu sentido.

3)      Qualitativo: destaca a qualidade, natureza ou espécie de algo ou alguém. Admite a substituição do substantivo por um adjetivo correspondente sem alterar o sentido.


Uma análise da posição de Harner

      Observe a regra abaixo:
      
 Um predicado anartro é usualmente indefinido quando segue o verbo. Quando é colocado antes do verbo, o padrão da gramática grega sugere que é qualitativo.
     Visto que, em João 1:1c o predicativo anartro θεός (deus) ocorre antes do verbo, segundo tal regra o substantivo θεός seria qualitativo, devendo ser traduzido “divino” (ou “divina”), e não “um deus”. Mas, seria assim mesmo?
    Philip B. Harner, no seu artigo “Substantivos Predicativos Anartros Qualificativos: Marcos 15:39 e João 1:1”, relaciona textos bíblicos como indicação dessa tese. Vamos fazer uma análise de suas afirmações.
1)      Harner atesta que João usa 18 vezes a construção em que o verbo precede um predicado anartro, e em todos os casos ele afirma que o predicado tem força indefinida. Os textos citados por ele são: João 1:41; 4:14, 18, 25; 6:55; 8:55; 9:28; 10:12; 11:38; 15:8; 18:13, 15, 38, 40; 19:12, 38.
   Um estudo imparcial dessas ocorrências leva às seguintes conclusões sóbrias:
  •     Apenas 10 ocorrências são predominantemente indefinidas. (João 1:41; 4:14; 8:55; 11:38; 15:8; 18:15 [2x], 40; 19:12, 38)
  •  2 podem ser tanto definidas como indefinidas.(João 9:28; 10:12)
  •  4 podem ser indefinidas, mas predomina a definição. (João 4:18; 6:55 [2x]; 18:38)
  •    1 é predominantemente definida. (João 18:13)

2)      Dos 53 usos do PNAPV que Harner encontrou no evangelho de João, ele defende que, em 40 casos, a força qualitativa do predicado é mais proeminente que sua definição ou indefinição. No entanto, dessas ocorrências, o próprio Harner põe em dúvida 11 casos.[3] Um estudo desses 40 nos leva ao resultado abaixo:
·  13 casos são predominantemente indefinidos. (João 3:4; 4:9; 6:70; 8:34, 44 [2x]; 48; 9:17; 10:1, 8, 13; 12:6; 18:35) João 6:70 é inquestionavelmente indefinido.

  •       5 podem ser tanto qualitativos como indefinidos. (João 3:6 [2x]; 9:24, 25; 10:33) 
  •       3 são predominantemente definidos. (João 3:29; 8:42; 10:2) João 8:42 é claramente definido. 
  •       2 podem ser tanto qualitativos como definidos. (João 6:63 [2x]) 
  •      Em 9 casos predomina a definição. (João 1:12; 6:70; 8:33, 37, 39; 12:50; 13:35; 15:14; 17:17)
  •       3 podem ser tanto definidos como indefinidos. (João 8:31; 9:27; 12:36)
  •       1 pode ser qualitativo, definido ou indefinido. (João 10:34)
  •        Em apenas 4 casos parece predominar a força qualitativa. (João 1:14; 2:9; 7:12; 9:31)    

A dificuldade da especificação do sentido


   Como se pode notar pelas observações acima, não é tarefa simples determinar a definição, indefinição ou qualitatividade de um substantivo anartro. O próprio Harner admitiu isso. No caso de Marcos 15:39, por exemplo, Harner conceitua que os três usos (qualitativo, definido e indefinido) são gramaticalmente possíveis e contextualmente aceitáveis.[4]

     Na parte final do texto em grego, Marcos relata as palavras do oficial do exército romano, quando este testemunhou os eventos incomuns ocorridos por ocasião da morte de Cristo. O oficial exclamou:

     αληθως      ουτος     ο   ανθρωπος υιος  θεου    ην

     Alethós        hoútos    ho  ánthropos   hyiós   Theoû    ên
     Certamente   este        o   homem        filho    de Deus era

     O que o oficial do exército tinha em mente ao usar a expressão “filho de Deus”? O Filho de Deus? Um filho de Deus? Um filho de um deus? Embora a Comissão da Tradução do Novo Mundo da Bíblia tenha optado pela expressão “o Filho de Deus”, dando à expressão o sentido definido, a nota de rodapé reconheceu outras possibilidades, ao rezar: “Ou ‘um filho de Deus’; ou: ‘um filho de um deus’.”
   Além disso, Harner afirmou que 11 casos poderiam ser definidos, mas que não existem claras indicações disso.[5] Causa admiração que tal estudioso tenha alistado entre tais casos o texto de João 6:70. Falando de Judas Iscariotes, Jesus declarou:  
            

    εξ υμων εις διαβολος εστιν

Ex  hymôn heîs  diábolós   estin

         De  vós      um   diabo        é
    Afirmar que o substantivo anartro diábolos (diabo) pode ser definido é admitir a possibilidade de Jesus ter identificado Judas como sendo a criatura espiritual que ficou conhecida como Satanás, o Diabo!
   O fato é que a gramática tem suas limitações. Ela pode determinar sujeito, predicado, caso, gênero, número, etc. Mas a gramática não pode determinar o sentido definido, indefinido ou qualitativo de uma sentença. Mesmo o padrão de estrutura de sentença, estabelecido pelo uso preponderante do escritor bíblico, não é determinativo quanto a estabelecer a tradução correta. Afinal, existem exceções à regra. Assim como um escritor neotestamentário usou uma exceção em determinada passagem, ele pode ter feito o mesmo num determinado versículo em questão.
   Uma vez que a gramática não pode determinar o sentido (definido, indefinido ou qualitativo) em João 1:1c, perguntamos:


É biblicamente incorreta a tradução “um deus”?
    Muitos trinitaristas não aceitam a tradução indefinida de théos em tal cláusula joanina porque isso faria do Filho um deus menor em relação ao Pai. No entanto, isso demonstra desconsideração do uso bíblico do termo “deus”.
     Além de aplicar tal termo justificadamente a Jeová, por Ele ser Supremo e Todo-Poderoso, e pejorativamente a deuses falsos, por estes serem idolatrados, a Bíblia aplica o termo “deus” em sentido positivo aos representantes do Deus Todo-Poderoso que gozam de poder e autoridade conferidos por ele. Jeová disse a Moisés que ele deveria servir de “Deus” para Arão e para Faraó. (Êxo. 4:16; 7:1) Isto não tornava Moisés o Deus Todo-Poderoso, nem alguém a ser adorado, mas sim o representante Dele.
     Outro sentido do termo “deus” é encontrado no Salmo 8:5, onde os anjos são mencionados como “deuses”. (Heb. 2:6-8) Além de serem poderosos e representantes do Deus Todo-Poderoso, os anjos também são seres divinos, pertencentes à classe de elohim. Eles são mencionados como sendo “filhos de Deus” (hebraico: beneí há-Elohím), em Jó 2:1 e 38:7. Isto denota que são da classe de elohim, assim como os “filhos dos profetas” são “pessoas pertencentes à corporação dos profetas”. (1 Reis 10:35; Amós 7:14; veja Gramática Hebraica de Gesenius, p. 418 § 2.) O Dicionário dos Livros do Velho Testamento (em inglês), de Koehler e Baumgartner, diz: “BENEI ELOHIM (individuais) seres divinos, deuses.”[6] Por isso, no Salmo 8:5, a expressão elohim é traduzida “anjos” na Septuaginta.[7]
    Assim, além de se referir a Jeová como “Deus” num sentido absoluto e exclusivo, a Bíblia também faz uso do termo “deus”, em sentido positivo, para referir-se a alguém (1) poderoso, (2) que é representante do Deus Altíssimo, e/ou (3) que tem natureza divina. Tendo em vista que Jesus Cristo é poderoso, é o maior representante de Deus e é um ser com natureza divina, com muito mais autoridade ele pode ser aludido como “deus” sem ser, contudo, o Deus Todo-Poderoso. Assim, a tradução “um deus” não é biblicamente incorreta.


Uma tradução qualitativa do texto faz diferença em sentido doutrinal?
     A conclusão a que Harner chegou de seu estudo sobre o uso dos substantivos anartros, em relação a João 1:1c, foi a seguinte: “Talvez a cláusula poderia ser traduzida ‘o Verbo tinha a mesma natureza de Deus.’ Esta seria uma forma de representar o pensamento de João, que é, como eu o entendo, que o Logos não é menos do que ho theós e tinha a natureza de theós.”
    Bem, uma coisa é admitir que o Logos (a Palavra, ou o Verbo) tinha a “natureza de theós”. Outra coisa é deduzir disso que o Logos “não é menos do que ho theós [o Deus]”. A Bíblia apresenta um indisputável quadro de subordinação e inferioridade do Filho em relação ao Pai. – Veja o artigo “A Trindade é ensinada no ‘Novo Testamento’?” neste blog. 
     Portanto, qualificar a Palavra como “divina” não implica em coigualdade – apenas ressalta sua natureza, do mesmo modo que qualificar alguém como “humano” não o torna coigual a outro humano; apenas destaca a sua natureza. No entanto, a tradução indefinida (“um deus”) preserva a palavra usada no texto – theós (deus); a palavra “divino” é theíos. Ademais, a tradução “um deus” destaca tanto a natureza como a individualidade da Palavra, sendo, portanto, semanticamente mais abrangente. Assim, a tradução “um deus” é gramaticalmente correta, é textualmente preservativa, é contextualmente certa e biblicamente exata.

[1] Predicativo Nominativo Anartro Pré-Verbal.
[2] A fórmula tradicional da doutrina da Trindade afirma que o Pai e o Filho são pessoas distintas.
[3] Estes são: João 1:12; 6:70; 8:33, 34, 37, 39; 9:17; 12:50; 13:35; 15:14; 17:17.
[4] “Substantivos Predicativos Anartros Qualificativos: Marcos 15:39 e João 1:1”, p. 81.
[5] Ibidem, p. 83.
[6] Página 134, coluna 1, linhas 12 e 13, edição de 1951.
[7] A tradução de Almeida, Revista e Corrigida, traduz por “anjos”, e coloca a seguinte nota de rodapé: “Ou, Deus. Heb Elohim.” No entanto, nessa passagem elohim está no plural numérico (“deuses”), sendo traduzido na NM por “os semelhantes a Deus”.
 fonte: o blog O Apologista da Verdade.
 Para ver a opinião de um erudito muito respeitado a respeito de João 1:1 clique aqui
OU VEJA ESTE VÍDEO  onde OUTRAS TRADUÇÃO OPTARAM PELA MESMA tradução da TNM
em João 1:1 “E a palavra era um deus”
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Comentários

  • Fabio  On 25 de maio de 2012 at 3:47

    Boa noite! Mais uma vez precisando de sua ajuda e comentários. Recebi de um crítico da TNM a seguinte declaração a respeito da possível incoerência em usar “um” como no caso de João 1:1. Note:

    “A regra da sintaxe do artigo. Fortes contradições e incoerências na tradução TNM. Eis alguns textos que deveriam ser vertidos como “um deus” caso fossem coerentes, uma vez que o artigo definido não aparece antes destas palavras:

    Mateus 5:9 – Chamados filhos de um Deus.

    Lucas 1:35 – Filho de um Deus.

    Lucas 1:78 – Compaixão de nosso um Deus.

    João 1:6 – Enviado por um Deus

    Por favor, aguardo seus comentários.

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  • queruvim  On 29 de maio de 2012 at 4:08

    Poste este argumento no FÓRUM por favor. Pois aqui não é um espaço reservado para “debates”. Fico no aguardo.É só criar uma conta e logar.

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