O que Jesus queria dizer ao dizer em João 10:30 “Eu e o Pai somos um” ?
A frase tem sido usada por muitos a fim de provarem que Jesus e Deus são o mesmo “Deus” e parte de uma triunidade. Poderia um exame detido do texto, indo além das aparências, confirmar esta visão teológica?
Em primeiro lugar observe o uso da palavra grega “um” ( em grego `en ) neste versículo.
egō kai o patēr en esmen
Observamos que Jesus usa a mesma palavra em sua oração na noite anterior a sua morte no Jardim do Getsêmani.
Lemos em João 17:11,21 onde Cristo se refere a seus seguidores fiéis :
““Também, não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo e eu vou para ti. Santo Pai, vigia sobre eles por causa do teu próprio nome que me deste, para que sejam um (em grego `en), assim como nós somos.”
“…a fim de que todos sejam um, (grego `en) assim como tu, Pai, estás em união comigo e eu estou em união contigo, para que eles também estejam em união conosco, a fim de que o mundo acredite que me enviaste”
Em vista desta declaração João 10:30 deve ser entendido em harmonia com este exemplo onde se usa a mesma palavra grega. Ademais, gramática a parte, observe a palavra “assim como” se referindo a similaridade de unidade que existe tanto entre Deus e Cristo, como também entre Cristo e seus seguidores fiéis. Óbvio que está descartada a interpretação de muitos que citam João 10:30 a fim de forçar a antibíblica teologia da trindade guela abaixo dos incautos.
Em João 10:30, é como se um filho dissesse ao inimigo de seu pai: ‘Se você atacar meu pai, você me ataca.’ Ninguém pensaria que esse filho e seu pai são a mesma pessoa. Mas todos notariam o forte vínculo de união entre eles.
Jesus e seu Pai, Jeová Deus, também são “um” no sentido de que estão em total acordo em seus objetivos, padrões e valores. Em contraste com Satanás, o Diabo, e o primeiro casal humano, Adão e Eva, Jesus nunca quis ser independente de Deus. “O Filho não pode fazer nem uma única coisa de sua própria iniciativa, mas somente o que ele observa o Pai fazer”, disse Jesus. “Porque as coisas que Este faz, estas o Filho faz também da mesma maneira.” — João 5:19; 14:10; 17:8.
De acordo com Lucas 22:42, Jesus disse: “Ocorra, não a minha vontade, mas a tua.” Essas palavras não fariam sentido se a vontade dele não pudesse ser diferente da vontade de seu Pai. Se Jesus e seu Pai fossem realmente uma só pessoa, por que Jesus orou a Deus, admitindo humildemente não saber certas coisas que apenas seu Pai sabia? — Mateus 24:36.
Observamos também o uso da mesma palavra grega HEN por Paulo em 1 Coríntios 3:8 onde Paulo fala de seu companheiro Apolo que revisitava os locais onde ele mesmo já havia pregado e disse:
“O que, então, é Apolo? Sim, o que é Paulo? Ministros por intermédio de quem vos tornastes crentes, assim como o Senhor concedeu a cada um. 6 Eu plantei, Apolo regou, mas Deus [o] fazia crescer; 7 de modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus que [o] faz crescer. 8 Ora, quem planta e quem rega é um só, (em grego `en ) mas cada um receberá a sua própria recompensa, segundo o seu próprio labor. 9 Pois somos colaboradores de Deus. Vós sois campo de Deus em lavoura, edifício de Deus”
Concluiríamos destas palavras eu Paulo e Apolo eram uma só pessoa ?
A Obra The Gospel According to John de J.N.Sanders and B.A.Mastin, Black’s New Testament Commentaries(London, 1968) diz:
“30 Que o Filho e o Pai são um (EN, neutro, literalmente uma coisa), não é usado como propondo algo em metafísica, mas simplesmente uma explicação porque um ataque ao filho seria também um ataque ao Pai, e fadado a falhar.”-p.258
A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to St. John, J.H.Bernard, T.& T.Clark, Edinburgh, 1928, pp. 365, 366:
“[EGO KAI HO PATNR HEN ESMEN[Lit: "Eu e o Pai um somos]]Tem sido costume, seguindo o hábito de comentadores patrísticos, interpretar estas palavras significativas a luz da controvérsia do 4º Século. Bengel, ex. (Seguindo Augustino), diz: “Per sumnus refutator Sabellius, per unum Arius”; sendo estas palavras tomadas a fim de provar a identidade da essência entre o pai e o filho, ao passo que a diferença de pessoas é indicada pelo plural [ESMEN]. Porém é um anacronismo transferir a controvérsia do 4º século para as declarações teológicas do primeiro . Temos um paralelo [EN ESMEN[Lit: "uma coisa somos"]] em 1 Cor.3:8, onde Paulo diz [HO PHUTEUWN KAI HO POTIZWN EN EISIN[Lit: "O que planta e o que rega um eles são]], significando que tanto o “que planta” e “o que rega” ” a semente, estão numa mesma categoria, comparado com Deus que dá o aumento. Uma unidade de propósito na irmandade, de vontade, e de objetivo entre o Pai e o Filho é um tema frequente no 4º Evangelho. (cf. 5:18,19; 14:9,23 and 17:11,22), e é plenamente e de modo poderoso expresso aqui.; mas forçar as palavras de modo a fazê-las indicar uma identidade [OUSIA['essência']], é introduzir pensamentos que não eram presentes aos teólogos do primeiro século.”
A respeito de João 10:30, João Calvino (que era trinitarista) disse no livro Commentary on the Gospel According to John (Comentário do Evangelho Segundo João):
“Os antigos usaram mal essa passagem para provar que Cristo é . . . da mesma essência que o Pai. Pois Cristo não argumenta a respeito da unidade em substância, mas sim a respeito do estado de concordância dele com o Pai.”
Eruditos que estão bem a par deste assunto dificilmente usariam tal texto a fim de tentar provar a doutrina da Trindade. A Bíblia de estudo Pentecostal, que traz comentários de rodapé, sequer comenta este texto, não faz nenhuma citação quando aborda a trindade.
Então, João 10:30 prova a trindade? Claro que não! Até porque o escritor inspirado usa a palavra “um” (em grego HEN) que é neutra ou seja aplicada a coisas impessoais. Obviamente seriam “um” em propósito e não como pessoa.
Quando Paulo falou de Apolo ele se referiu a ambos como sendo “um só” e disse : “Quem planta e quem rega é um só” E usou a palavra HEN. Será que Paulo e Apolo eram uma só pessoa ? Aplicar João 10:30 da forma como fazem alguns trinitários é não somente gramaticalmente errado como também ignora as declarações claras da Bíblia onde Cristo e seu Pai são diferenciados. Em João 5:32,37 Jesus disse claramente :
“Há outro que dá testemunho de mim…o próprio Pai que me enviou dá testemunho de mim.Vós nem ouvistes jamais a sua voz , nem vistes a sua figura”.
É interessante observar também que Jesus não teve a menor intenção de se referir a palavra “Deus” na frase “Eu o e o Pai somos um”. Há uma infinidade de textos que demonstam que o Filho é diferente do Pai e que estes não são a mesma pessoa. Jesus disse em João 14:28 :
“…vou embora para o Pai porque o Pai é maior do que eu”. Além disso, Jesus chama seu Pai de “O único Deus verdadeiro” (João 17:3) E que o Pai de Jesus é o Deus de Jesus, Aquele a quem ele chama de “meu Deus” em João 20:17.Além disso, mais de 60 anos após a ascensão, Jesus é visto dizendo numa visão revelada ao idoso Apóstolo João em Apocalipse 3:12:
“‘Aquele que vencer — eu o farei coluna no templo do meu Deus, e ele, de modo algum, jamais sairá [dele], e escreverei sobre ele o nome do meu Deus e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu da parte do meu Deus, e aquele meu novo nome.”
Lembre-se que isto foi falado por Cristo após ter subido ao céus. O que indica então o contexto global das Escrituras ? Obviamente que os Evangélicos e outros que costumam citar João 10:30 “Eu e o Pai somos um” a fim de “provar” a trindade, estão ignorando o contexto geral da palavra de Deus e introduzindo sua teologia nas Escrituras Sagradas!
Até mesmo o Erudito trinitário W.E. VINE abordando o tema referente a palavra grega HEN escreveu:
“…b. metafóricamente [figurativamente] união e acordo, exemplo: João 10:30;11:52; 17:11, 21,22…”- An Expository Dictionary of New Testament Words, p. 809.
O erudito trinitário William Barclay escrevendo em seu diário Daily Study Bible Series, O Evangelho de João, vol. 2, A Imprensa Westminster, 1975, pp 74, 75, 76 diz:
“Agora chegamos à afirmação suprema [de João 10:30]. “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus. O que ele quis dizer? É um mistério absoluto, ou se pode compreender pelo menos um pouco dele? Somos levados a interpretá-la em termos de essência e hipóstase e todo o resto das noções metafísicas e filosóficas sobre as quais os fabricantes de credos lutaram e defenderam? Precisaríamos ser um teólogo ou um filósofo a fim de compreender até mesmo um fragmento do significado desta tremenda declaração ?”
“Se recorrermos a própria Bíblia para a interpretação”, continua Barclay, “nós achamos que ela é na verdade tão simples que a mente mais simples pode compreendê-la. Voltemo-nos para o décimo sétimo capítulo do Evangelho de João, que fala da oração de Jesus para seus seguidores antes de sua morte: “Pai Santo, guarda em teu nome, que me tens dado, para que eles sejam um, como nós somos um “(João 17:11). Jesus concebeu a unidade dos cristãos com cristãos como a mesma que a sua unidade com Deus. “
“Aqui está a essência da questão”, diz Barclay. “O vínculo de unidade é o amor, a prova de amor é a obediência. Os cristãos são ”um” com os outros quando eles estão ligados pelo amor, e obedecer as palavras de Cristo. Jesus é um com Deus, porque, como nenhum outro jamais fez, ele obedeceu e o amava. Sua unidade com Deus é uma unidade de amor perfeito, mostrando perfeita obediência. [2]
“Quando Jesus disse:” Eu e o Pai somos um “, ele não estava se referindo ao mundo da filosofia e da metafísica e abstrações, ele estava se referindo ao mundo das relações pessoais Ninguém pode realmente entender o que uma frase como” uma unidade. de essência ” quer dizer, mas qualquer um pode entender o que significa uma unidade de coração, a unidade que Jesus com Deus veio a partilhar tanto o amor perfeito quanto a obediência perfeita. Ele era um com Deus porque ele o amava e lhe obedeceu perfeitamente ….”
Finalmente, precisamos estar cientes de que a palavra “um” em João 10:30 e 17:22 é a forma neutra hen. As duas outras formas de “um” são MIA, que é a forma feminina, e as HEIS, a forma masculina. Aqueles que insistem que João 10:30 quer dizer que o ”Pai e eu somos um só Deus” estão claramente equivocados, como demonstrado somente pela gramática grega do Novo Testamento .
“Deus” no grego do Novo Testamento é sempre masculino e devem ter formas masculinas de adjetivos, pronomes, etc, em acordo (ver Marcos 12:29, 32;. 1 Cor 8:4;. Ef 4:4-6 nas Bíblias interlineares ).
Ou, como o Dr. Marshall coloca em uma de suas regras gramaticais básicas NT grego:
“Os adjetivos devem concordar com os substantivos que elas modificam em gênero, número e caso …”. – P. 25, Regra 7, New Testament Greek Primer, Alfred Marshall,publicadora Zondervan , impressão de 1978 .
O erudito trinitário Robert Young comentou sobre esse reconhecimento da palavra “um” em João 10:30 em sua obra Young’s Concise Critical Bible Commentary:
“A partícula en [hen] que está no gênero neutro, dificilmente pode significar” um ser, ou seja, um só Deus ‘, mas sim “um na vontade, em propósito, conselho, …” – pg. 62, Baker Book House, 1977.
Verdadeiramente, então, não há absolutamente nenhuma evidência de uma interpretação “trinitária” em João 10:30.
Sobre o contexto imediato de João 10:30
Uma acusação de blasfêmia surgiu por Jesus ter dito: “Eu e o Pai somos um.” (Jo 10:30) Que isto não significava que Jesus pretendia ser o Pai, ou ser Deus, é evidente da sua própria réplica. A unidade a que Jesus se referia deve ser entendida em harmonia com o contexto da sua declaração. Ele falava de suas obras, e do seu cuidado pelas “ovelhas” que o seguiriam. Suas obras, bem como suas palavras, demonstravam que havia união, e não desunião e desarmonia, entre ele e seu Pai, ponto este que sua resposta passou a enfatizar. (Jo 10:25, 26, 37, 38; compare isso com 4:34; e 5:30; 6:38-40; 8:16-18.) Com respeito às suas “ovelhas”, ele e seu Pai estavam igualmente unidos em proteger tais pessoas semelhantes a ovelhas e em guiá-las para a vida eterna. (Jo 10:27-29; compare isso com Ez 34:23, 24.) A oração de Jesus em favor da união de todos os seus discípulos, inclusive os futuros, demonstra que a unicidade ou união entre Jesus e seu Pai não se referia à identidade de pessoa, mas ao propósito e à ação.
Em harmonia com isto, Jesus, ao responder a uma pergunta de Tomé, disse: “Se vós me tivésseis conhecido, teríeis também conhecido meu Pai; deste momento em diante vós o conheceis e o tendes visto”, e, em resposta a uma pergunta de Filipe, Jesus acrescentou: “Quem me tem visto, tem visto também o Pai.” (Jo 14:5-9) De novo, a explicação seguinte de Jesus mostra que isto se dava porque ele, Jesus, representava fielmente o Pai, falava as palavras do Pai e fazia as obras do Pai. (Jo 14:10, 11; compare isso com Jo 12:28, 44-49.) Foi nesta ocasião, na noite anterior à sua morte, que Jesus disse a estes mesmos discípulos: “O Pai é maior do que eu.” — Jo 14:28.
À luz de outros exemplos bíblicos pode-se também entender como os discípulos podiam ‘ver’ o Pai em Jesus. Jacó, por exemplo, disse a Esaú: “Vi a tua face como se visse a face de Deus, visto que me recebeste com prazer.” Ele disse isto porque a reação de Esaú se harmonizava com a oração que Jacó fizera a Deus. (Gên 33:9-11; 32:9-12) Depois de a interrogação de Jó por Deus, de dentro dum vendaval, ter esclarecido o entendimento deste homem, Jó disse: “Em rumores ouvi a teu respeito, mas agora é o meu próprio olho que te vê.” (Jó 38:1; 42:5; veja também Jz 13:21, 22.) Os ‘olhos de seu coração’ tinham sido iluminados. (Veja Ef 1:18.) Que a declaração de Jesus sobre ver o Pai devia ser entendida figurativamente, e não de forma literal, evidencia-se na sua própria declaração em João 6:45, bem como no fato de que João, muito depois da morte de Jesus, escreveu: “Nenhum homem jamais viu a Deus; o deus unigênito, que está na posição junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado.” — Jo 1:18; 1Jo 4:12.
